{"id":9424,"date":"2021-10-25T15:38:56","date_gmt":"2021-10-25T15:38:56","guid":{"rendered":"https:\/\/pueblosencamino.org\/?p=9424"},"modified":"2021-10-25T15:38:58","modified_gmt":"2021-10-25T15:38:58","slug":"em-memoria-de-cristina-bautista-abracaremos-a-terra-para-com-ela-nos-libertarmos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pueblosencamino.org\/?p=9424","title":{"rendered":"Em mem\u00f3ria de Cristina Bautista, abra\u00e7aremos a terra para com ela nos libertarmos"},"content":{"rendered":"\n<p>\u200b\u200bNossos povos continuam sendo negados e silenciados. Se reitera, mais uma vez, a disputa patriarcal contra nossas autonom\u00edas. Somos produto de um sistema patriarcal, colonial, estatal, racista que se manifesta desde as institui\u00e7\u00f5es estabelecidas at\u00e9 nossos fazeres comunit\u00e1rios. Nessa trama, somos violentadas nas nossas casas e tamb\u00e9m dentro de nossas lutas. Em mem\u00f3ria de Cristina Bautista Taquin\u00e1s e de todos nossos mortos, repito a afirma\u00e7\u00e3o urgente de reciprocidade entre palavra e a\u00e7\u00e3o: \u201cA mulher \u00e9 fundamental e a cosmovis\u00e3o reivindica isso, falta apenas que se cumpra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As lutas de Cristina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No dia 29 de outubro de 2019, a companheira Cristina Bautista Taquin\u00e1s foi assassinada em um massacre que matou tamb\u00e9m Asdr\u00fabal Cayapu, Eliodoro Finscue, Jos\u00e9 Gerardo Soto e James Wilfredo Soto. Ela exercia o papel de autoridade tradicional de preserva\u00e7\u00e3o ind\u00edgena em Tacueey\u00f3 e os outros atuavam como guardas ind\u00edgenas. Estavam comprometidos com o cuidado do territ\u00f3rio e com a defesa da organiza\u00e7\u00e3o coletiva frente a desapropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto exerciam suas tarefas comunit\u00e1rias, foram emboscados por agentes paramilitares armados, que disputam o controle de territ\u00f3rios com for\u00e7as do narcotr\u00e1fico e que t\u00eam assassinado a toda pessoa que se negue a compactuar com as m\u00e1fias e que exija liberdade para seu povo. Depois de um ano de massacre tudo era ainda \u201cmat\u00e9ria de investiga\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o havia clareza sobre os fatos ocorridos, n\u00e3o havia captura dos assassinos e nem dos mandantes do crime e a fam\u00edlia Bautista Taquin\u00e1s nem sequer havia recebido os resultados da aut\u00f3psia.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida de Cristina, como mulher de uma fam\u00edlia e de uma comunidade empobrecida, foi uma vida de luta. Desde muito menina, aprendeu a cuidar de suas irm\u00e3s e a \u201cbuscar o p\u00e3o de cada dia\u201d. Na escola, lhe pediram uma vez meio quilo de arroz e, como n\u00e3o tinha, deixou de estudar. Com 12 anos, saiu de sua casa e tornou-se empregada dom\u00e9stica na cidade. Foi maltratada pelas patroas e um patr\u00e3o tentou estupr\u00e1-la. Gra\u00e7as a ajuda de uma amiga, conseguiu trabalho na casa de uma senhora que a ajudou a voltar aos estudos. Enfrentou muitos desafios e perigos mas conseguiu se formar como Assistente Social.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caminho, soube que o munic\u00edpio de Torib\u00edo (na regi\u00e3o do Cauca) ocupava um dos primeiros lugares em viol\u00eancia contra a mulher na Col\u00f4mbia e ent\u00e3o decidiu voltar \u00e0 sua regi\u00e3o. Inicialmente sua palavra e suas a\u00e7\u00f5es foram ignoradas. Por ser mulher, jovem e crist\u00e3, Cristina foi recha\u00e7ada por lideran\u00e7as machistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, Cristina Bautista Taquin\u00e1s continuou sua miss\u00e3o de vida, visitando, escutando e trocando experi\u00eancias com mulheres (reativou o Movimento da Mulher Nasa Costurando Pensamento). Tamb\u00e9m, como trabalhadora municipal da Aten\u00e7\u00e3o a V\u00edtimas de Torib\u00edo e mesmo por fora da institui\u00e7\u00e3o, ela se aproximou cada vez mais da comunidade. N\u00e3o imp\u00f4s suas cren\u00e7as crist\u00e3s e sim, sentiu com o cora\u00e7\u00e3o as viol\u00eancias contra as mulheres, jovens e crian\u00e7as. Suas contribui\u00e7\u00f5es foram excepcionais como volunt\u00e1ria, inclusive no processo da Constituinte Nasa, onde inicialmente havia sido recha\u00e7ada porque n\u00e3o tinha aval de ningu\u00e9m e n\u00e3o estava em nenhum dos grupos seletos. Mas com perseveran\u00e7a e humildade continuou participando, levando at\u00e9 mesmo a pr\u00f3pria comida para estar a\u00ed. Ela passou de exclu\u00edda e negada ao lugar de porta-voz e redatora dessa iniciativa. Foi nesse contexto que come\u00e7ou a ser cogitada como poss\u00edvel candidata a autoridade tradicional de seu territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/periferiaemmovimento.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/02082021_Cristina-Bautista.jpg?resize=640%2C480\" alt=\"\" class=\"wp-image-17412\"\/><figcaption>Assassinada em 2019, Cristina era autoridade tradicional de preserva\u00e7\u00e3o ind\u00edgena em Tacueey\u00f3 e estava comprometida com o cuidado do territ\u00f3rio e com a defesa da organiza\u00e7\u00e3o coletiva<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O patriarcado que nos habita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diante da possibilidade de que Cristina fosse eleita, chegaram a dizer: \u201cse ganha a de saia, se acaba o movimiento\u201d. Mas a comunidade elegeu a ela, que ficou entre as 6 autoridades tradicionais de Tacuey\u00f3, com alt\u00edssima vota\u00e7\u00e3o. Em seu curto tempo como autoridade, fez um trabalho exemplar e incompar\u00e1vel. Dizia: \u201cTodos somos guardi\u00f5es, mas todos em a\u00e7\u00e3o\u201d, por isso n\u00e3o era estranho v\u00ea-la fazendo guarda ou servindo o caf\u00e9 que preparava. Sem d\u00favida, aplicou um dos princ\u00edpios zapatistas que s\u00e3o um desafio: \u201cservir e n\u00e3o servir-se\u201d. Tampouco estranhava que alguns homens e mulheres autorit\u00e1rios a desrespeitassem, a silenciassem e at\u00e9 mesmo fizessem chacota de seus discursos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dolorosamente, o patriarcado \u00e9 mais vis\u00edvel e denunci\u00e1vel frente ao poder externo que exercem contra nossos povos e territ\u00f3rios para mercantilizar bens comuns e acumular riqueza; mas esse mesmo poder e patriarcado \u00e9 menos vis\u00edvel e somos mais condescendentes quando \u00e9 exercido internamente. Por exemplo: quando denunciamos viol\u00eancias de nossos companheiros e somos re-vitimizadas sem conseguir justi\u00e7a. Quando nos garantem um cargo condicionado ao sil\u00eancio, obedi\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias que v\u00e3o contra a coletividade. Quando somos marcadas e exclu\u00eddas por fazer cr\u00edticas em busca de transforma\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias. Quando nos estigmatizam como pe\u00e7as soltas, porque n\u00e3o nos encaixamos na carruagem desenvolvimentista-progressista-institucionalizada que nos amarra \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o e nega nossa dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00f3s, mulheres, tamb\u00e9m violentamos: quando obedecemos a projetos que s\u00f3 cumprem as pr\u00f3prias agendas. Quando reduzimos as viol\u00eancias machistas e n\u00e3o as enxergamos na rela\u00e7\u00e3o estrutural com o estado, com o extrativismo e com o racismo. Quando capturamos as lutas das mulheres e as submetemos ao c\u00e1rcere dos conceitos. Quando em nome de nossa liberta\u00e7\u00e3o como mulheres nos inserimos nas pol\u00edticas do norte, apresentando-as como pol\u00edticas de vida. Quando nos apropriamos das lutas territoriais para disputar migalhas governamentais. Quando nos convertemos no macho do lar e submetemos a nosso companheiro por ser homem. Somos produto deste sistema a que resistimos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Autonom\u00edas para florescer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O patriarcado, o colonialismo, o capitalismo, o racismo\u2026 eles causam eros\u00e3o e distorcem a vida comunit\u00e1ria. Para persistir, temos de saber se estamos reproduzindo estas formas de domina\u00e7\u00e3o, ou se pelo contr\u00e1rio, estamos buscando resist\u00eancias aut\u00f3nomas emancipadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa exist\u00eancia depende da capacidade cr\u00edtica que tenhamos para reconhecer as formas de domina\u00e7\u00e3o cotidianas do machismo herdado da igreja e da escola, ao mesmo tempo, as estruturas que as propiciam e atravessam em todos os \u00e2mbitos. J\u00e1 dever\u00edamos assumir que as lutas contra o racismo, o classismo e o sexismo s\u00e3o insepar\u00e1veis entre si e do patriarcado, do estado e do capitalismo: \u201cn\u00e3o se pode destruir o capitalismo sem destruir o Estado, n\u00e3o se pode destruir o Estado sem destruir o patriarcado\u201d, como dizem as kurdas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como decorr\u00eancia, se queremos persistir como povos, temos de re-pensar, re-criar, re-tomar, re-existir com autonomia. \u201cQuando a autonomia avan\u00e7a, o Estado retrocede\u201d. Como ser coerentes e consequentes quando nossos movimentos seguem enfeiti\u00e7ados com o Estado, com o poder e pretendem mudar o mundo desde o pal\u00e1cio principal? Esta contradi\u00e7\u00e3o deveria envergonhar-nos diante do cuidado com as sementes, com a terra, \u00e1gua, fogo, ar, marchas, \u201cmingas y trueques\u201d*, e tamb\u00e9m assembleias, congressos, e mobiliza\u00e7\u00f5es. Cristina Bautista representa e expressa o voo sagrado \u00e0 partir das mulheres, de nosso povo e territ\u00f3rio frente ao desafio de constituirmos um tecido com nossa M\u00e3e Terra. Umbiga-nos com a terra para libert\u00e1- la e n\u00e3o obrig\u00e1-la a converter-se em mercadoria para acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*A\u00a0<strong>minga<\/strong>\u00a0\u00e9 uma a\u00e7\u00e3o coletiva para atingir um objetivo comum e\u00a0<strong>trueque<\/strong>\u00a0\u00e9 a troca sem a media\u00e7\u00e3o de dinheiro e fora da l\u00f3gica capitalista.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fuente: <a href=\"http:\/\/periferiaemmovimento.com.br\/especialmulheresnegras_2\/\">Periferia en Movimiento<\/a><\/strong> (Agosto de 2021)<\/p>\n\n\n\n<p><em>Texto originalmente publicado em espanhol em\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.pueblosencamino.org\/\"><em><strong>www.pueblosencamino.org<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Por Vilma Almendra \u2013 pueblosencamino.org<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nota de edi\u00e7\u00e3o \u2013 colombianas Nath\u00e1lia Hernandez e Adriana Villareal (Revista Amazonas), Tradu\u00e7\u00e3o \u2013 brasileira Helena Silvestre (Revista Amazonas)<br>Revis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o \u2013 nicaraguense Amanda Martinez (Revista Amazonas)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Vilma Almendra Quiguanas<\/strong>, autora deste sentido perfil, junto com sua pequena filha, Violeta Kiwe Rozental, escreveram e ilustraram livro&nbsp;<\/em><em>para crian\u00e7as<\/em>&nbsp;<em>\u201cCristina Bautista: V\u00f4o que sangra desta terra\u201d , onde narram a hist\u00f3ria e o assassinato da defensora da vida e do territorio&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u200b\u200bNossos povos continuam sendo negados e silenciados. 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