{"id":711,"date":"2014-03-25T17:09:44","date_gmt":"2014-03-25T17:09:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pueblosencamino.org\/wp\/?p=711"},"modified":"2014-03-25T17:09:44","modified_gmt":"2014-03-25T17:09:44","slug":"brasil-os-indios-tupinamba-e-a-cobertura-enviesada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pueblosencamino.org\/?p=711","title":{"rendered":"Brasil: Os \u00edndios Tupinamb\u00e1 e a cobertura enviesada"},"content":{"rendered":"<div> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">\u201c\u2026Uma an\u00e1lise da cobertura midi\u00e1tica da disputa contempor\u00e2nea em torno do territ\u00f3rio Tupinamb\u00e1 indica que a ampla maioria das pe\u00e7as jornal\u00edsticas alinha-se com a perspectiva de sujeitos e grupos contr\u00e1rios \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o, reverberando seus discursos. Nesse contexto, a produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica vem sendo acionada inclusive por ju\u00edzes, em suas decis\u00f5es, para \u201ccomprovar\u201d pr\u00e1ticas delituosas atribu\u00eddas aos \u00edndios.\u201d\u2026<\/span><\/em><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<div> \t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-709\" alt=\"\" src=\"http:\/\/pueblosencamino.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/serradopadeiro.jpg\" style=\"width: 650px; height: 432px;\" width=\"1024\" height=\"680\" srcset=\"https:\/\/pueblosencamino.org\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/serradopadeiro.jpg 1024w, https:\/\/pueblosencamino.org\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/serradopadeiro-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Em 26 de fevereiro \u00faltimo, o Jornal da Band veiculou uma reportagem denunciando a \u201cfraude que criou uma tribo de falsos \u00edndios\u201d, dando origem \u00e0 Terra Ind\u00edgena (TI) Tupinamb\u00e1 de Oliven\u00e7a, no sul da Bahia. Numerosos dados equivocados foram apresentados na mat\u00e9ria, que sustenta, por exemplo, que a Constitui\u00e7\u00e3o Federal pro\u00edbe a \u201camplia\u00e7\u00e3o de \u00e1reas ind\u00edgenas\u201d \u2013 como se sabe, a lei maior determina o reconhecimento pelo Estado dos direitos territoriais ind\u00edgenas. Nenhum \u00edndio foi ouvido pela reportagem; dos sete entrevistados, ao menos tr\u00eas s\u00e3o pretensos propriet\u00e1rios de \u00e1reas no interior da TI, o que n\u00e3o \u00e9 informado aos espectadores. Chega-se a insinuar que um criminoso colombiano estaria \u201cpor tr\u00e1s\u201d da mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena pela demarca\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio, em uma conspira\u00e7\u00e3o internacional para arrebatar terras a produtores rurais brasileiros.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">A reportagem enviesada debru\u00e7a-se sobre um contexto de intenso conflito territorial e de viol\u00eancia contra os Tupinamb\u00e1. Em 28 de janeiro de 2014, agentes da For\u00e7a Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica e da Pol\u00edcia Federal instalaram uma base policial na aldeia Serra do Padeiro, no interior da TI. Com isso, tratavam de consolidar sua presen\u00e7a na \u00e1rea \u2013 onde atuavam desde agosto do ano anterior, por determina\u00e7\u00e3o do ministro da Justi\u00e7a, Jos\u00e9 Eduardo Cardozo \u2013, dando in\u00edcio \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o militar permanente do territ\u00f3rio ind\u00edgena. No m\u00eas seguinte, cerca de 500 soldados do Ex\u00e9rcito deslocaram-se \u00e0 regi\u00e3o, por ordem da presidenta Dilma Rousseff, para \u201cgarantir a lei e a ordem\u201d, \u201cpacificando\u201d as rela\u00e7\u00f5es entre ind\u00edgenas e n\u00e3o-\u00edndios contr\u00e1rios \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o da TI. Os ind\u00edgenas passaram a ser vigiados ostensivamente e tiveram lugar a\u00e7\u00f5es de reintegra\u00e7\u00e3o de posse violentas.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Na tarde de 8 de novembro de 2013, tr\u00eas ind\u00edgenas do povo Tupinamb\u00e1 foram assassinados em uma emboscada, no interior da TI. As v\u00edtimas \u2013 Aurino Santos Calazans (31 anos), Agenor Monteiro de Souza (30 anos) e Ademilson Vieira dos Santos (36) \u2013 foram atacadas a tiros e golpes de fac\u00e3o por quatro homens, que se aproximaram em duas motocicletas. A esposa de Aurino tamb\u00e9m estava no local, mas conseguiu escapar. Ela descreveu um ataque brutal. Um dos ind\u00edgenas foi encontrado quase decepado, apresentando sinais de tortura (foi chicoteado) e muitos ferimentos provocados por fac\u00e3o.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Desde o in\u00edcio dos anos 2000, os Tupinamb\u00e1 v\u00eam demandando do Estado brasileiro o reconhecimento das terras que tradicionalmente ocupam e, por meio de a\u00e7\u00f5es conhecidas como \u201cretomadas de terras\u201d, v\u00eam tratando de recuperar as \u00e1reas que lhes foram tomadas. A penetra\u00e7\u00e3o massiva de n\u00e3o-ind\u00edgenas no territ\u00f3rio Tupinamb\u00e1 teve in\u00edcio no final do s\u00e9culo 19, quando a regi\u00e3o tornou-se a principal fronteira agr\u00edcola do estado da Bahia, com o estabelecimento da cultura do cacau. Entre os anos de 1920 e 1940, esse processo se intensificou. Os ind\u00edgenas que n\u00e3o migraram para as zonas urbanas mantiveram-se em peda\u00e7os de terra muito diminutos ou passaram a trabalhar em fazendas de cacau, em condi\u00e7\u00f5es extremamente prec\u00e1rias, em alguns casos, inclusive como m\u00e3o-de-obra escrava.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">O processo de identifica\u00e7\u00e3o da TI Tupinamb\u00e1 de Oliven\u00e7a \u2013 que se estende por por\u00e7\u00f5es dos munic\u00edpios de Buerarema, Ilh\u00e9us e Una, e onde vivem cerca de 4.700 ind\u00edgenas, segundo dados da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade para 2009 \u2013, teve in\u00edcio em 2004, como resultado de prolongada press\u00e3o por parte dos ind\u00edgenas. Cinco anos depois, a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio delimitou a TI em cerca de 47 mil hectares. Descumprindo os prazos estabelecidos pelo Decreto 1.775\/96, o ministro da Justi\u00e7a ainda n\u00e3o assinou a portaria declarat\u00f3ria da TI, para que o processo ent\u00e3o se encaminhe para as etapas finais. Em raz\u00e3o da omiss\u00e3o governamental, o conflito se acirrou. Em 14 de agosto \u00faltimo, um ve\u00edculo que transportava estudantes ind\u00edgenas foi alvejado, em uma emboscada, deixando dois jovens feridos. Nas semanas subsequentes, ve\u00edculos de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e casas de ind\u00edgenas foram incendiadas, em protesto contra a demarca\u00e7\u00e3o.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Pouco mais de dois meses antes dos assassinatos dos tr\u00eas Tupinamb\u00e1, referido acima, editorial do jornal A Regi\u00e3o, de Itabuna, publicado em 31 de agosto, arremetia contra o reconhecimento dos direitos territoriais dos \u00edndios: demarcar a TI equivaleria a \u201centregar 30% do territ\u00f3rio de Ilh\u00e9us a malandros que nunca foram \u00edndios\u201d. \u201cNem \u00e9 preciso olhar muito para ver que a maioria dos que se dizem tupinamb\u00e1 n\u00e3o tem qualquer caracter\u00edstica f\u00edsica de \u00edndio. O chefe do bando, por exemplo, Babau, est\u00e1 mais para vocalista do Olodum que para cacique ind\u00edgena. Posso dizer que sou mais \u00edndio que ele.\u201d Nessa passagem, o editorialista refere-se a Rosivaldo Ferreira da Silva (Babau), um dos caciques Tupinamb\u00e1, e alude ao fen\u00f3tipo de parte dessa popula\u00e7\u00e3o \u2013 decorrente de seu prolongado contato com a sociedade envolvente e dos muitos casamentos inter\u00e9tnicos ocorridos na regi\u00e3o \u2013 para negar a identidade \u00e9tnica dos Tupinamb\u00e1.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Ap\u00f3s descrever o que seria a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o dos pretensos propriet\u00e1rios de terras da regi\u00e3o \u2013 v\u00edtimas da \u201cjusti\u00e7a caolha\u201d, da \u201csuspeita Funai\u201d e do \u201cgoverno esquerd\u00f3ide Dilma\u201d \u2013, o autor conclui, com a mesma frase da manchete: \u201cS\u00f3 restam as armas\u201d. Na mesma \u00e9poca, um outdoor instalado na regi\u00e3o acusava os \u00edndios de \u201cgenoc\u00eddio\u201d e trazia a imagem de dois homens sem rosto apontando armas, acima dos dizeres: \u201cResponda governador antes que seja tarde demais\u201d. Como se ver\u00e1, a criminaliza\u00e7\u00e3o dos Tupinamb\u00e1 pela imprensa deita ra\u00edzes no passado \u2013 remontando a um epis\u00f3dio de resist\u00eancia ind\u00edgena ocorrido nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930 \u2013 e, contemporaneamente, tem implica\u00e7\u00f5es diretas no processo de demarca\u00e7\u00e3o.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Flagelo perturbador da ordem p\u00fablica<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">\u201cCriminoso perigos\u00edssimo e hediondo\u201d, \u201cfac\u00ednora\u201d, \u201crepelente criminoso\u201d, \u201co terror de Oliven\u00e7a\u201d, \u201ctruculento cafuzo\u201d, \u201cbandido\u201d e \u201cbandoleiro\u201d. Essas foram algumas das express\u00f5es utilizadas por Jo\u00e3o da Silva Campos, autor da Cr\u00f4nica da Capitania de S\u00e3o Jorge dos Ilh\u00e9us (escrita entre os anos de 1936 e 1937, e publicada em 1947), para se referir ao ind\u00edgena Marcellino Jos\u00e9 Alves, principal personagem do que ficou conhecido como a \u201crevolta do caboclo Marcellino\u201d. Entre os \u00faltimos anos da d\u00e9cada de 1920 e o final da d\u00e9cada de 1930, com o intuito de barrar o avan\u00e7o dos n\u00e3o-\u00edndios sobre as terras tradicionalmente ocupadas pelos Tupinamb\u00e1, Marcellino organizou a resist\u00eancia ind\u00edgena e, em decorr\u00eancia disso, foi perseguido e preso em diferentes ocasi\u00f5es.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Na \u00e9poca, teve lugar uma intensa campanha de criminaliza\u00e7\u00e3o contra os ind\u00edgenas levantados, operada em grande parte pela imprensa regional. Em 1929, os jornais de Ilh\u00e9us come\u00e7aram a noticiar, de forma sensacionalista e tendenciosa, supostos atos de vandalismo que estariam sendo praticados por Marcellino e seus companheiros. As den\u00fancias eram unilateralmente apoiadas em relatos de fazendeiros, sustentando que os ind\u00edgenas estariam percorrendo a regi\u00e3o incendiando fazendas, destruindo planta\u00e7\u00f5es e disseminando o terror entre os pacatos moradores da \u00e1rea.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Ainda em 1929, foi noticiada a primeira pris\u00e3o de Marcellino, acusado, entre outros crimes, de assassinato. A 5 de novembro, lia-se no Correio de Ilh\u00e9us: \u201cComunicam-nos de Oliven\u00e7a que acaba de ser preso pela pol\u00edcia e paisanos o caboclo Marcellino pronunciado por crime de morte e que ali estava cometendo grandes depreda\u00e7\u00f5es auxiliado por irm\u00e3os e outros caboclos. Este criminoso constituiu-se um permanente flagelo e perturbador da ordem p\u00fablica. (&#8230;) \u00c9 uma not\u00edcia que vai alegrar a todos que tinham conhecimento dos desatinos praticados pelo bandido (&#8230;)\u201d (portugu\u00eas atualizado).<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Frequentemente, Marcellino era comparado ao c\u00e9lebre bandido social Virgulino Ferreira da Silva, o Lampi\u00e3o, que \u201caterrorizava\u201d os sert\u00f5es nordestinos. Tornou-se, tamb\u00e9m ele, um famigerado, realizador de inigual\u00e1veis \u201cfa\u00e7anhas criminosas\u201d, como se l\u00ea no Di\u00e1rio da Tarde, tamb\u00e9m de Ilh\u00e9us, na edi\u00e7\u00e3o de 10 de junho de 1936. Na mesma mat\u00e9ria, Marcellino \u00e9 referido como o \u201chomem que se fez bugre\u201d, constru\u00e7\u00e3o discursiva que busca enquadr\u00e1-lo em um \u201cest\u00e1gio evolutivo\u201d atrasado. \u201cBugre\u201d, neste caso, figura como termo an\u00e1logo a express\u00f5es como \u201c\u00edndio selvagem\u201d ou \u201cgentio bravo\u201d, frequentemente mencionadas em documentos do s\u00e9culo XIX para designar a \u201cpraga\u201d que infestava as matas do sul da Bahia: as \u201chordas ind\u00edgenas\u201d que, resistindo a ingressar no \u201cgr\u00eamio da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, impunham \u00f3bices ao \u201cdesenvolvimento\u201d da regi\u00e3o.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Nesse quadro, eram constantes os alarmes falsos alardeando a captura e a morte de Marcellino. Os boatos fervilhavam, alimentados pela pr\u00f3diga cobertura jornal\u00edstica, que, de tempos em tempos, anunciava eminentes \u201cinvas\u00f5es\u201d de Marcellino e seu \u201cbando\u201d \u00e0 vila de Oliven\u00e7a. Em 16 de janeiro de 1936, o Di\u00e1rio da Tarde referiu-se a um desses boatos, endossando-o: \u201cCirculou ontem na cidade, quando se realizava o pleito municipal, uma not\u00edcia alarmante. O caboclo Marcellino, o j\u00e1 bastante famoso \u2018homem que se fez bugre\u2019, aproveitando o fato de estar Oliven\u00e7a desguarnecida, com a vinda para o Pontal [de Ilh\u00e9us] de muitos cidad\u00e3os eleitores, amea\u00e7ava assaltar aquela localidade\u201d.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">O ind\u00edgena era associado agora n\u00e3o apenas a Lampi\u00e3o, mas tamb\u00e9m ao l\u00edder comunista Lu\u00eds Carlos Prestes, no contexto da repress\u00e3o \u00e0 \u201camea\u00e7a vermelha\u201d. Em 1937, Marcellino e ao menos mais tr\u00eas ind\u00edgenas, ao lado de alguns n\u00e3o-\u00edndios, foram indiciados como comunistas. Enviado ao Rio de Janeiro, foi condenado pelo Tribunal de Seguran\u00e7a Nacional, mas libertado ainda no mesmo ano, por n\u00e3o ter culpa formalizada. Sabe-se que ent\u00e3o retornou a Ilh\u00e9us e que uma autoridade policial local aconselhou-o a n\u00e3o permanecer na regi\u00e3o, argumentando que sua vida corria perigo. \u00c9 ent\u00e3o que os arquivos silenciam sobre seu paradeiro.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Caboclos fantasiados de \u00edndios<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-710\" alt=\"\" src=\"http:\/\/pueblosencamino.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/caminhada.jpg\" style=\"width: 650px; height: 406px;\" width=\"800\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/pueblosencamino.org\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/caminhada.jpg 800w, https:\/\/pueblosencamino.org\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/caminhada-300x188.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Uma an\u00e1lise da cobertura midi\u00e1tica da disputa contempor\u00e2nea em torno do territ\u00f3rio Tupinamb\u00e1 indica que a ampla maioria das pe\u00e7as jornal\u00edsticas alinha-se com a perspectiva de sujeitos e grupos contr\u00e1rios \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o, reverberando seus discursos. Nesse contexto, a produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica vem sendo acionada inclusive por ju\u00edzes, em suas decis\u00f5es, para \u201ccomprovar\u201d pr\u00e1ticas delituosas atribu\u00eddas aos \u00edndios. Ao conceder liminar de interdito proibit\u00f3rio a um fazendeiro em face dos Tupinamb\u00e1, em 2006, uma ju\u00edza federal em Ilh\u00e9us justificava que as \u201camea\u00e7as\u201d de que eram acusados os ind\u00edgenas constitu\u00edam \u201cfato not\u00f3rio, conforme amplamente divulgado recentemente na imprensa escrita, falada e televisionada\u201d.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Jornais como Agora e A Regi\u00e3o, de Itabuna, trazem reportagens claramente editorializadas \u2013 n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar em seus textos afirma\u00e7\u00f5es preconceituosas em rela\u00e7\u00e3o aos ind\u00edgenas e se notam, tamb\u00e9m, procedimentos como a veicula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o checadas. Em 27 de fevereiro de 2010, A Regi\u00e3o falava em \u201cbandidos que se dizem \u00edndios\u201d e \u201ccaboclos fantasiados de \u00edndios\u201d. J\u00e1 em 11 de mar\u00e7o, quando o cacique Babau foi ilegalmente preso, o jornal comemorou: \u201cFoi de al\u00edvio o clima no sul da Bahia, ao receber a not\u00edcia de que o suposto cacique Babau (&#8230;) foi preso (&#8230;). Ele estava sendo ca\u00e7ado desde agosto do ano passado\u201d.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Emissoras de r\u00e1dio t\u00eam sido ainda mais virulentas. Rivamar Mesquita, apresentador do programa Novo Amanhecer, da R\u00e1dio Jornal, de Itabuna, sugeriu a realiza\u00e7\u00e3o de emboscadas contra os \u00edndios, conforme se l\u00ea em documento da Secretaria da Justi\u00e7a, Cidadania e Direitos Humanos do Estado da Bahia datado de 2010. Not\u00edcias atacando os ind\u00edgenas s\u00e3o constantemente veiculadas tamb\u00e9m pela r\u00e1dio Sideral, de Buerarema \u2013 cujo diretor, Carlos Freitas, tomou posse em 19 de dezembro \u00faltimo como um dos diretores da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de R\u00e1dios Comunit\u00e1rias. No site da emissora, notas aludem aos \u201csupostos \u00edndios\u201d e \u00e0s \u201cbarbaridades\u201d que teriam sido por eles cometidas.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">No que diz respeito \u00e0 imprensa de circula\u00e7\u00e3o nacional, duas reportagens tornaram-se not\u00f3rias, pela profus\u00e3o de erros factuais e afirma\u00e7\u00f5es preconceituosas: \u201cO Lampi\u00e3o tupinamb\u00e1\u201d, publicada pela revista \u00c9poca em 2009, e \u201cA farra da antropologia oportunista\u201d, publicada pela revista Veja em 2010. Na \u00faltima, os \u00edndios da Serra do Padeiro s\u00e3o referidos como \u201cneotupinamb\u00e1s\u201d e como \u201cos novos canibais\u201d. Em 17 de julho de 2010, o ex-diretor de reda\u00e7\u00e3o da \u00c9poca, Paulo Moreira Leite, publicou no portal da revista na internet uma inventiva nota afirmando que estava em elabora\u00e7\u00e3o, pela Funai, um decreto anulando a demarca\u00e7\u00e3o da TI, ap\u00f3s o \u00f3rg\u00e3o haver constatado \u201cque os estudos antropol\u00f3gicos que identificam as terras como sendo dos tupinamb\u00e1s eram grosseiramente falsificados\u201d. O texto dizia ainda que o cacique Babau estava prestes a perder \u201csua carteira de identidade ind\u00edgena\u201d. Como se sabe, nada disso ocorreu \u2013 e, se houvesse ocorrido, tratar-se-ia de viola\u00e7\u00f5es grosseiras ao ordenamento jur\u00eddico brasileiro.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Demarca\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Para indicar alguns mecanismos manipulat\u00f3rios adotados pela imprensa, interessa analisar a produ\u00e7\u00e3o de um jornal de circula\u00e7\u00e3o estadual, A Tarde, de Salvador, no qual o engajamento com os setores contr\u00e1rios \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o \u00e9 menos caricato, mas, ainda assim, evidente. Os textos caracterizam os \u00edndios de maneira preconceituosa \u2013 por exemplo, ao falar em \u201cmesti\u00e7os que se intitulam \u00edndios tupinamb\u00e1s\u201d (26 de mar\u00e7o de 2010). Fazendo as vezes de juiz, apresentam os ind\u00edgenas como culpados de crimes ainda n\u00e3o julgados. Tamb\u00e9m veiculam as vers\u00f5es de fontes envolvidas no conflito como se fossem os fatos.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Em um exemplo claro de seu engajamento na disputa, em 14 de junho de 2009, A Tarde publicou reportagem em destaque (texto de p\u00e1gina inteira, em um domingo) sobre a demarca\u00e7\u00e3o da TI Kiriri, no nordeste da Bahia. Tratava-se de uma mat\u00e9ria \u201cfria\u201d \u2013 para usar o jarg\u00e3o jornal\u00edstico, sem \u201cgancho\u201d a lhe atribuir atualidade e justificar sua publica\u00e7\u00e3o \u2013, que cumpria um papel claro: indicar o caso Kiriri como um exemplo a ser evitado no sul da Bahia. Intitulada \u201cDemarca\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica\u201d, a mat\u00e9ria trazia os seguintes dizeres, em destaque: \u201cCaso de Banza\u00ea exp\u00f5e os riscos que rondam os munic\u00edpios de Ilh\u00e9us, Buerarema e Una, no sul\u201d.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">\u201cAtaque de \u00edndios deixa 4 feridos e 3 desaparecidos\u201d, l\u00ea-se em manchete de A Tarde de 26 de fevereiro de 2010, em refer\u00eancia ao conflito ocorrido na fazenda Serra das Palmeiras nos dias 23 e 24 do mesmo m\u00eas, quando agentes da Pol\u00edcia Federal e fazendeiros tentaram retirar \u00e0 for\u00e7a os ind\u00edgenas que estavam na \u00e1rea, que fora por eles retomada no dia 19. Como se v\u00ea, em lugar de atribuir as informa\u00e7\u00f5es a fontes, o jornal afirma categoricamente. J\u00e1 no corpo do texto, descobrimos que a informa\u00e7\u00e3o baseia-se em relato de testemunha n\u00e3o identificada, que fala ainda em dois mortos. Apenas no \u00faltimo par\u00e1grafo o leitor \u00e9 informado, a partir de declara\u00e7\u00e3o do delegado da Pol\u00edcia Civil de Buerarema, sobre o fato de n\u00e3o terem sido registradas na pol\u00edcia den\u00fancias de morte ou desaparecimento. Al\u00e9m disso, a express\u00e3o \u201cataque de \u00edndios\u201d \u00e9 eficaz quando se trata de evocar constru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas em torno da \u00edndole \u201cselvagem\u201d que, segundo certo pensamento, seria inerente aos ind\u00edgenas.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Em reportagem de 27 de fevereiro, o jornal recua \u2013 mas n\u00e3o retifica o que escrevera na v\u00e9spera \u2013 e fala em \u201cpelo menos um desaparecido\u201d. O \u201cterror\u201d vivido na m\u00e3o dos \u00edndios ganha em densidade dram\u00e1tica: \u201cFoi um massacre, uma carnificina. Fomos cercados pelos \u00edndios sem chance de defesa, est\u00e1vamos despreparados. Nunca vi nada igual\u201d, diz \u201cum dos baleados\u201d, que, conforme apurou o jornal junto a sua esposa, \u201cteria sido atingido pelos disparos quando tentava dizer aos \u00edndios que se rendia\u201d e sobreviveu \u201cpor milagre\u201d. Ainda segundo a mulher, \u201cmesmo \u00e0 noite, o c\u00e9u ficou claro com tantos tiros\u201d. E o pior ainda estaria por vir, j\u00e1 que, segundo a reportagem, os \u00edndios amea\u00e7avam \u201cinvadir\u201d o centro de Buerarema \u2013 \u201cainda hoje\u201d. Imposs\u00edvel n\u00e3o ouvir ecos, nesse epis\u00f3dio, do \u201cmedo\u201d que tomou conta de Oliven\u00e7a em janeiro de 1936, quando correu o boato de que Marcellino \u201cinvadiria\u201d a vila para expulsar os n\u00e3o-\u00edndios. Nos dois casos, os boatos foram suficientes para mobilizar as for\u00e7as policiais.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Ao assumir como verdadeiras as declara\u00e7\u00f5es concedidas por fontes envolvidas no conflito, o jornal exime-se de apurar, a ponto de veicular informa\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas equivocadas, que poderiam ser facilmente verificadas. Em reportagem de 2 de mar\u00e7o de 2010, noticiando a perman\u00eancia dos \u00edndios na Serra das Palmeiras, A Tarde conversa com um fazendeiro e informa que o fazendeiro \u201cmostrou o interdito proibit\u00f3rio, documento que pro\u00edbe a demarca\u00e7\u00e3o da terra\u201d. Como se sabe, \u201cproibir demarca\u00e7\u00f5es\u201d n\u00e3o est\u00e1 no escopo deste instrumento jur\u00eddico, j\u00e1 que o Estatuto do \u00cdndio (Lei n\u00ba6.001\/73) veda a utiliza\u00e7\u00e3o de interditos possess\u00f3rios contra a demarca\u00e7\u00e3o de Terras Ind\u00edgenas.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Oferecendo uma cobertura parcializada e discriminat\u00f3ria, os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos v\u00eam contribuindo para a cristaliza\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos sobre os povos ind\u00edgenas no senso comum. Como se viu, t\u00eam se esfor\u00e7ado para definir a disputa fundi\u00e1ria em favor dos setores contr\u00e1rios \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o da TI Tupinamb\u00e1 de Oliven\u00e7a, perpetuando, assim, as viola\u00e7\u00f5es historicamente cometidas contra o povo Tupinamb\u00e1.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Por: Daniela Fernandes Alarcon e Patr\u00edcia Navarro de Almeida Couto em 25\/03\/2014 na edi\u00e7\u00e3o 791<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Em: <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/_ed791_os_indios_tupinamba_e_a_cobertura_enviesada\">Observat\u00f3rio da Imprensa&nbsp;<\/a><\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">***<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Daniela Fernandes Alarcon \u00e9 jornalista (USP), mestre em Ci\u00eancias Sociais (UnB) e pesquisadora associada ao Laborat\u00f3rio de Estudos e Pesquisas em Movimentos Ind\u00edgenas, Pol\u00edticas Indigenistas e Indigenismo (Laepi\/UnB), desenvolveu pesquisa de mestrado acerca das retomadas de terras entre os Tupinamb\u00e1 da Serra do Padeiro, <a href=\"http:\/\/repositorio.unb.br\/handle\/10482\/13431\"><strong>dispon\u00edvel aqui<\/strong><\/a>. Patr\u00edcia Navarro de Almeida Couto \u00e9 mestre em Ci\u00eancias Sociais, com concentra\u00e7\u00e3o em Antropologia (UFBA), pesquisadora associada ao Programa de Pesquisas sobre Povos Ind\u00edgenas do Nordeste Brasileiro (PINEB\/UFBA) e professora no Departamento de Ci\u00eancias Humanas e Filosofia (UEFS). Em sua pesquisa de mestrado (<a href=\"https:\/\/www.dropbox.com\/s\/59cg9zqwfuyds7k\/morada_encantados.pdf\"><strong>dispon\u00edvel aqui<\/strong><\/a>), investigou identidade e religiosidade dos Tupinamb\u00e1 da Serra do Padeiro<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u2026Uma an\u00e1lise da cobertura midi\u00e1tica da disputa contempor\u00e2nea em torno do territ\u00f3rio Tupinamb\u00e1 indica que a ampla maioria das pe\u00e7as<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":709,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-711","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-c18-extermino-terror-y-guerra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=711"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/711\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/709"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}