{"id":700,"date":"2014-03-22T12:59:32","date_gmt":"2014-03-22T12:59:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pueblosencamino.org\/wp\/?p=700"},"modified":"2014-03-22T12:59:32","modified_gmt":"2014-03-22T12:59:32","slug":"votan-zapata-palavra-e-acao-caminhando-rumo-ao-coracao-dos-nossos-territorios-uma-historia-na-escuelita-zapatista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pueblosencamino.org\/?p=700","title":{"rendered":"Vot\u00e1n zapata, palavra e a\u00e7\u00e3o caminhando rumo ao cora\u00e7\u00e3o dos nossos territ\u00f3rios: uma hist\u00f3ria na Escuelita Zapatista"},"content":{"rendered":"<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">\u00ab&#8230;Faz quase trinta anos, as rebeldias de outros calend\u00e1rios e geografias: o Vot\u00e1n Zapata, o guardi\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o do povo, tomou o rosto de mulheres e homens ind\u00edgenas, ordin\u00e1rios e inconformados do sudoeste mexicano, os quais resistindo e aprendendo a organizar-se contra a explora\u00e7\u00e3o, o despojo, o desprecio, a repress\u00e3o, foram e v\u00e3o, ao passo, seu passo, construindo \u201cformas outras\u201d de governar-se, \u201cformas outras\u201d de produzir alimento, \u201cformas outras\u201d de sanar-se, educar-se, informar-se, procurar justi\u00e7a, em suma: \u201cformas outras\u201d de viver dignamente&#8230;\u00bb&nbsp;<\/span><\/div>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<div> \t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-699\" alt=\"\" src=\"http:\/\/pueblosencamino.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/EZLNM.jpg\" style=\"width: 650px; height: 454px;\" width=\"635\" height=\"444\" \/><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">\u201cDesde a hora primeira desta larga noite em que morremos, dizem nossos mas antigos av\u00f3s, houve quem acolheu nossa dor e nosso esquecimento. Houve um homem que, caminhando sua palavra desde longe, a nossa montanha chegou e falou com a l\u00edngua dos homens e mulheres verdadeiro. Era e n\u00e3o era destas terras seus passos, na boca dos nossos mortos, na voz dos s\u00e1bios anci\u00e3os, caminhou a palavra dele at\u00e9 nossos cora\u00e7\u00f5es. Houve e h\u00e1, irm\u00e3os, quem sendo e n\u00e3o sendo semente de estes solos \u00e0 montanha chegou, morrendo, para viver de novo, irm\u00e3os, viveu morrendo o cora\u00e7\u00e3o deste passo pr\u00f3prio e alheio quando casa fez na montanha de noturno teto. Foi e \u00e9 seu nome nas nomeadas coisas. Se det\u00e9m e caminha em nossa dor sua palavra terna. \u00c9 e n\u00e3o \u00e9 em estas terras: Vot\u00e1n Zapata, guardi\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o do povo\u201d.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">CCRI-CGEZLN, Monta\u00f1as del sureste mexicano, 1994.<\/span><\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">[Comunicado completo em: &nbsp;<a href=\"http:\/\/palabra.ezln.org.mx\/comunicados\/1994\/1994_04_10_d.htm\">http:\/\/palabra.ezln.org.mx\/comunicados\/1994\/1994_04_10_d.htm<\/a>]<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Faz quase trinta anos, as rebeldias de outros calend\u00e1rios e geografias: o Vot\u00e1n Zapata, o guardi\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o do povo, tomou o rosto de mulheres e homens ind\u00edgenas, ordin\u00e1rios e inconformados do sudoeste mexicano, os quais resistindo e aprendendo a organizar-se contra a explora\u00e7\u00e3o, o despojo, o desprecio, a repress\u00e3o, foram e v\u00e3o, ao passo, seu passo, construindo \u201cformas outras\u201d de governar-se, \u201cformas outras\u201d de produzir alimento, \u201cformas outras\u201d de sanar-se, educar-se, informar-se, procurar justi\u00e7a, em suma: \u201cformas outras\u201d de viver dignamente. &nbsp; &nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Esse Vot\u00e1n germinou mulheres e homens verdadeiros, hoje em dia, com um cargo muito especial: ser profess@res na Escuelita Zapatista, cuja a primeira li\u00e7\u00e3o tem sido acolher nossa dor e esquecimento, o de quase dois mil estudantes de todo o mundo, e transform\u00e1-lo em semente de resist\u00eancia que regressar\u00e1 ao lugar de onde sa\u00edmos, procurando germinar, a pesar de que para muit@s d@s estudantes n\u00e3o seja ainda claro a dor e o esquecimento que nos aprisiona.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">***<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Roberto trocou os nomes reais dos protagonistas nesta hist\u00f3ria- estava nervoso, seus olhos bordeando o passa-montanhas mostravam o temor comum ao outro, \u00e0 outra, que n\u00e3o se conhece. Fazia apenas um par de horas que as cumbias haviam deixado de se escutar e ele se encontrava j\u00e1 formado frente ao galp\u00e3o do p\u00e1tio central do Caracol da Garrucha, em territ\u00f3rio zapatista. Roberto estava a\u00ed, esperando ao seu estudante, com quem passaria cada hora y minuto durante os pr\u00f3ximos cinco dias, compartilhando um pedacinho da sua vida em resist\u00eancia, e n\u00e3o apenas, tamb\u00e9m a de seus pais, irm\u00e3os, cunhada, esposa, tr\u00eas filhos e uma sobrinha em caminho. Como n\u00e3o ai estar nervoso! N\u00e3o obstante, a convic\u00e7\u00e3o de que a luta n\u00e3o se ganhou ainda enquanto a liberdade n\u00e3o seja para todos no mundo, convertia esse nervosismo em alegria, alegria de ter com quem compartilhar a responsabilidade de construir outro mundo.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">A um lado de Roberto estava eu, aderente urbano \u00e0 sexta (haja peso depois dessa experi\u00eancia!), professor explorado da Universidade Aut\u00f3noma de Quer\u00e9taro, estudante de doutorado na capital. Estava com os nervos de um estudante na sua primeira aula frente ao professor, mais ainda, frente ao seu Vot\u00e1n, guardi\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o do povo. Queria perguntar tantas coisas mas um oi bastou para romper o gelo e come\u00e7ar a conhecermos. Durante as primeiras horas, as perguntas eram de rigor e as respostas quase telegr\u00e1ficas, mas Roberto j\u00e1 se havia agregado \u00e0 lista de profess@res que foram capazes de modificar minha maneira de ser e estar nesse mundo.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">&nbsp;Assistimos juntos \u00e0 primeira aula coletiva onde estavam tod@s @s estudantes e seus Votans. Os professores regionais nos explicaram que est\u00e1vamos a\u00ed para aprender como \u00e9 que @s zapatistas constroem na pratica e de maneira coletiva seu governo pr\u00f3prio e como o sustentam, assim como o processo longo e dif\u00edcil que foi chegar a isso, onde a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a terra, a justi\u00e7a, a democracia, a paz, a informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o uma mercadoria \u2013 como onde n\u00f3s vivemos \u2013 se n\u00e3o que servem para construir uma vida digna.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Duas coisas importantes chamaram a aten\u00e7\u00e3o dessa primeira aula coletiva: 1) A \u00eanfase em que n\u00e3o \u00e9 que tenham ganhado j\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o e possam sentar-se e descansar, se n\u00e3o que \u00e9 um processo de sempre, de todos os dias e em todas as atividades, cotidianas e n\u00e3o cotidianas e que assim ser\u00e1 sempre. 2) o convite reiterado a organizarmos em nossos pr\u00f3prios lugares onde vivemos, para poder lutar junt@s j\u00e1 que de outra forma n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer frente \u00e0 guerra que estamos morrendo. Entre os cochilos, as vezes incontrol\u00e1vel do cansa\u00e7o e o calor, as perguntas surgiam: como era poss\u00edvel que havendo consolidado um governo pr\u00f3prio e os trabalhos coletivos que o sustentam nos contem a tantas pessoas do planeta os detalhes mais m\u00ednimos de como o fazem, pondo assim em risco todo o que eles tem constru\u00eddo, inclusive suas vidas? A resposta: a guerra \u00e9 mundial e mundial deve ser a resist\u00eancia. &nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Levei para a comida estas perguntas pulsando, enquanto Roberto levava o pozol (bebida feia de massa de milho mo\u00eddo com \u00e1gua) e as tostadas. Me convidou, aceitei, se surpreendeu, e ria enquanto eu dissolvia a massa de milho em \u00e1gua com os dedos e bebia, foram os primeiros sorrisos que trocamos. Depois, a caminhonete nos levava a uma parte mais profunda do seu cora\u00e7\u00e3o, a Dolores Hidalgo \u2013 sua comunidade \u2013 e a sua casa, com sua fam\u00edlia.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Roberto me ensinou que a comunidade de Dolores Hidalgo \u00e9 grande, de umas oitenta fam\u00edlias, todas zapatistas. Se chama assim pelas dores que traz consigo a luta, os sofrimentos, o que nos cobra, e Hidalgo pelo sacerdote que lutou na independ\u00eancia. Dolores, junto com outras comunidades das cercanias formam o munic\u00edpio San Manuel, quem foi um dos fundadores do FLN \u2013 organiza\u00e7\u00e3o m\u00e3e do EZLN \u2013 e ascendido a santo pelo pr\u00f3prio povo. A comunidade e o munic\u00edpio nomeiam os seus mortos e seus sofrimentos contra o esquecimento. .<\/span><\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">&nbsp;&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Chegamos a Dolores quando j\u00e1 era noite. Mulheres, homens, crian\u00e7as, jovens, anci\u00e3os, nos receberam com aplausos e viva aos estudantes da Escuelita Zapatista! Nos abriam o cora\u00e7\u00e3o daquilo que mais querem e pelo que vivem e morrem: seu territ\u00f3rio. Roberto me puxou para um canto e me deixou encarregado com o seu pai e sua fam\u00edlia, enquanto ele resolvia as quest\u00f5es organizativas da reparti\u00e7\u00e3o dos estudant@s a cada uma das fam\u00edlias convidadas. Uma companheira estudante ia com n\u00f3s tamb\u00e9m, Silvana era seu nome. Entre luzes de vela \u2013 l\u00e1 n\u00e3o tem eletricidade \u2013 nos acomodaram onde seria nossos lugares de descanso e reflex\u00e3o, de sonhos, de aprendizagem compartilhadas. L\u00e1 os sal\u00f5es de aula se esfuma\u00e7ava como nebrina por todos os cantos da casa e se chamava de mil maneiras. O sono chegou. N\u00e3o havia descansado t\u00e3o bem desde muitos dias atr\u00e1s como essa noite.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">***<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Imposs\u00edvel seria reconstruir cada passo desde o amanhecer do seguinte dia, e em caso de faz\u00ea-lo. Igualmente haveria palavras, gestos, sorrisos, cumplicidades, hist\u00f3rias que ficariam s\u00f3 no cora\u00e7\u00e3o, tentarei assim s\u00f3 contar algumas hist\u00f3rias dispersas, pensando sempre desde \u201co para que\u201d da Escuelita Zapatistas: regar sementes pelo mundo esperando a flor da resist\u00eancia&#8230;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Meus professores!<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Apenas comecei a conhecer \u00e0 fam\u00edlia que me recebia em Dolores Hidalgo e me dei conta que n\u00e3o tinha um, mas nove professores que se encarregariam de me ensinar as primeiras letras no resistir para a vida, aos quais se agregavam outros tr\u00eas que tamb\u00e9m eram visitas: Silvana, sua vot\u00e1n Ruth e o filho dela de dez anos de idade. &nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Os pais de Roberto rondam os cinquenta anos, talvez mais, sempre tenho dificuldades para calcular idades. Don Manuel trabalha a terra e tem um cargo importante na igreja cat\u00f3lica da comunidade, entrou na organiza\u00e7\u00e3o em 1987, poucos anos depois da sua funda\u00e7\u00e3o. Dona Maria Luisa, sua esposa, trabalha na lavoura e na casa. Soledad, a esposa de Roberto, ronda os vinte e tantos igual a ele, e seus tr\u00eas filh@s tem tr\u00eas, seis e dez anos cada um, os dois \u00faltimos estudam em uma escola aut\u00f4noma. Salvador \u00e9 o irm\u00e3o de roberto, sempre sorri, tem apenas dezessete anos e espera j\u00e1 um filh@ com Marcia quem \u00e9 sua esposa e tem quase a mesma idade. Todos colaboram nos trabalhos familiares e tamb\u00e9m, exceto as crian\u00e7@s, nos trabalhos coletivos da comunidade, onde vivem desde que se fundou em 1997 em terras recuperadas dos latifundi\u00e1rios mediante o levantamento armado de 1994.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Os trabalhos de homens e mulheres est\u00e3o perfeitamente delimitados. Desde o amanhecer, as hist\u00f3rias de ambos se transam de maneiras diferentes, mesmo com bastantes pontos de encontro e compartilhamento do ocorrido durante o dia. Um desses pontos \u00e9 o fog\u00e3o da cozinha, a\u00ed se ati\u00e7am a mem\u00f3ria e a palavra \u2013 mesmo n\u00e3o sabendo muito bem o tema por minha incapacidade de entender tzertal. Durante as tardes, terminados os trabalhos familiares e\/ou coletivos, a\u00ed se trabalha entre tod@s algumas tarefas pequenas como debulhar o milho, descascar lim\u00e3o, limpar o feij\u00e3o, etecetera, enquanto se conversa sobre diferentes temas. Durante a caminhada tamb\u00e9m era uma espa\u00e7o onde entre tod@s respondiam a muitas das perguntas depois de dedicar-se algumas horas \u00e0 leitura dos livros de texto. &nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Enquanto corriam os dias eu entendia que a qualidade de vida neste lar superava e muito \u00e0 que tenho na cidade: alimenta\u00e7\u00e3o sem agroqu\u00edmicos vs. Alimenta\u00e7\u00e3o toxica; teto amplo de jardins vs. Apartamento alugado de quarenta metros quadrados sem nenhuma vegeta\u00e7\u00e3o; meio de produ\u00e7\u00e3o coletivo vs. Venda da m\u00e3o de obra barata como \u00fanica possibilidade de sobreviv\u00eancia; escolas e clinicas de sa\u00fade gratuitas e de qualidade vs. Escolas e hospitais caros e ineficientes; e muitos eteceteras. O que era que fazia a diferen\u00e7a? Como haviam chegado a construir essa forma de vida em s\u00f3 tr\u00eas d\u00e9cadas? Mediante a resist\u00eancia e a organiza\u00e7\u00e3o, construindo trabalhos coletivos e autogovernando-se insistem desde as crian\u00e7as at\u00e9 os anci\u00e3os zapatistas. Mas o que significa isso exatamente?<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">A milpa para comer<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Entre sonhos escutei meu nome v\u00e1rias vezes, era Roberto que me chamava para tomar caf\u00e9 e partir para a milpa, n\u00e3o sem antes dotar-me do equipamento necess\u00e1rio: botas, fac\u00e3o e embornal com pozol. Com n\u00f3s iam Don Manuel e Salvador.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Se trata da milpa familiar, caminhamos para chegar a ela apenas uns dez ou vinte minutos. Neste tempo o milho j\u00e1 est\u00e1 dobrado para secar-se e colher. Quebrar o milho verde, tirar a palha e coloc\u00e1-las em um saco era a tarefa; ao mesmo tempo que juntar um pouco de lenha. Rapidamente mostrei minha inexperi\u00eancia quando para tirar a palha de uma espiga dedicava o mesmo tempo que meus professores descascava tr\u00eas ou quatro. Don Manuel se aproximou a mim, tomando suas pontas me ensinou como tinha que fazer e me deu a espiga, nos sorrimos sem dizer nenhuma palavra e continuamos trabalhando debaixo de sol. &nbsp;&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">&nbsp;Roberto, lembrando do seu cargo de promotor de educa\u00e7\u00e3o durante dez anos, me explicou que essa milpa era para abastecer a alimenta\u00e7\u00e3o familiar ainda que o plantio \u00e9 coletivo, se avan\u00e7a mais assim, replico. Terminamos logo, mas antes de voltar a casa coletamos huitlacoches \u2013 cogumelos do milho \u2013 a minha sugest\u00e3o, comentando que de onde eu vinha era uma comida muito apreciada, e apesar que em Dolores n\u00e3o se acostumava comer aceitaram que experiment\u00e1ssemos comer uns tacos chegando a casa.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Essa tarde, a sensa\u00e7\u00e3o de haver comido algo coletado pela manh\u00e3 come\u00e7o a me dar a ideia concreta do que era a autonomia zapatista. Semeando coletivamente, em terras recuperadas com as armas e depois mantidas mediante a resist\u00eancia pacifica aos maus governos atrav\u00e9s de organizar-se dividindo as tarefas, mas sem produzir domina\u00e7\u00e3o, isso \u2013 sim, at\u00e9 faz falta respirar para nomear tudo o que se necessita \u2013 definitivamente lhe dava um sabor distinto as \u201cgorditas\u201d de feij\u00e3o novo, aos tacos de huitlacoche, ao milho cozido com maionese, e a esses goles de caf\u00e9 que apagavam as chamas da pimenta \u201cbola\u201d em minha boca. Tinham sabor a rebeldia y dignidade. E que isso n\u00e3o seja em uma fam\u00edlia sen\u00e3o nas oitenta dessa comunidade, em todas as comunidades do munic\u00edpio aut\u00f4nomo de San Manuel, nos quatro munic\u00edpios o caracol de La Garrucha, e nos quatro carac\u00f3is, ou seja, num monte de fam\u00edlias, \u00e9 o que converte ao zapatismo como um dos movimentos mais importantes de transforma\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">O trabalho coletivo no curral para educar-se e sanar-se&nbsp;<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">&nbsp;A comunidade de Dolores Hidalgo par juntar fundos que cubram as necessidades que v\u00e3o tendo, puseram para andar projetos de trabalhos coletivos de diferentes coisas, comumente separados entre os que fazem os homens e os que fazem as mulheres, pelas necessidades diferentes que t\u00eam. No caso dos homens, um desses trabalhos \u00e9 o coletivo de gado, o qual cuidam entre todos, utilizando os recursos gerados entre outras coisas para educar-se e sanar-se. Assim t\u00eam decidido nas assembleias.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Apenas amanhecia quando j\u00e1 todos os homens da fam\u00edlia caminhando rumo ao curral coletivo, uma ampla extens\u00e3o de terreno com capim para que as vacas comam e cres\u00e7am s\u00e2ns. Com afiador de m\u00e3o, quase uma centena de companheiros prepar\u00e1vamos os fac\u00f5es para a capina, ou seja, o corte da erva que n\u00e3o come o gado. N\u00e3o esperamos muito tempo quando j\u00e1 todos os companheiros est\u00e1vamos a\u00ed, s\u00f3 havia faltado um, que depois poria em dia com o seu trabalho ou seria sancionado conforme o regulamento.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Ante eles pensei nas enormes dificuldades que na cidade temos para participar todos de um trabalho coletivo, e ent\u00e3o perguntei a Roberto: que acontece se voc\u00ea n\u00e3o vem amanh\u00e3? Virei ao outro dia, respondeu. Mas segui insistindo: e se n\u00e3o vem nem ao outro dia, nem nunca? Roberto se riu e me disse que tinha que fazer o trabalho porque na organiza\u00e7\u00e3o ou voc\u00ea trabalha ou vai embora, ent\u00e3o penei em tudo o que havia em jogo em caso de ser expulso: a vida com dignidade que se construiu durante anos em comunidade. E olhem que isso \u00e9 bastante, pensem, o trabalho que far\u00edamos essa semana corresponde a tr\u00eas meses de trabalho intenso de uma s\u00f3 familia. O trabalho pol\u00edtico est\u00e1 intimamente encarnado na vida de todos os participantes da organiza\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o fragmentado como na maioria dos nossos coletivos e organiza\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">&nbsp;Foi verdadeiramente impressionante e interessante a maneira de trabalhar essa manh\u00e3. Don Manuel abriu os trabalhos com uma ora\u00e7\u00e3o com a finalidade de dar gra\u00e7as e que tudo sa\u00edsse bem. Nos colocamos em uma larga, muito larga fila horizontal junto ao alambrado do curral, e caminhando de frente, cada integrante ia limpando seu passo, sem que ningu\u00e9m ficasse muito para traz nem se adiantasse demais. Era uma forma bastante boa de equilibrar o trabalho. Ao cabo de algumas horas, e entre descansos, bolhas, rasgos de espinhos, o grito de \u2013 n\u00e3o corte isso que \u00e9 um cedro! (Ou era um cedro), o encontro de um coelho assustado, ou de uma cobra perdida, e o pensar constante de em que momento eu ia desmaiar, chegamos ao t\u00e3o esperado outro lado do curral. Eram as nove da manh\u00e3 quando j\u00e1 beb\u00edamos o pozol, fumava um cigarro, e pensava em ir descansar quando se reiniciaram as atividades, faltava um tramo similar por capinar. Ao meio dia o curral estava pronto para as vacas zapatistas.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Antes de irmos a casa perguntei como haviam feito para ter suas primeiras vacas. Roberto me respondeu que solicitaram a um pequeno agricultor, dos que n\u00e3o se foram com a guerra em 1994, que lhes desse vacas para cuidar em suas terras por determinado per\u00edodo, das crias que nascem, o trato \u00e9 que quem cuida fica com a metade, \u201ca meia\u201d lhe chamam, uma pratica usada desde a col\u00f4nia e que agora era usada para consolidar a resist\u00eancia. Com o tempo, regressaram ao produtor suas vacas e ficaram unicamente vacas zapatistas, aut\u00f4nomas, imediatamente pensei nos esfor\u00e7os iniciais de muitos coletivos e\/ou organiza\u00e7\u00f5es na cidade por fazer com nossos pr\u00f3prios meios, com nossos pr\u00f3prios recursos, e tamb\u00e9m como aqui, as vezes funciona e as vezes n\u00e3o tanto e tem que voltar ao come\u00e7o. &nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Mas essa manh\u00e3 tamb\u00e9m aprendi outra coisa. Enquanto cortava uma infinidade de esp\u00e9cies de plantas e saltavam animais diferentes fugindo por suas casas destru\u00eddas, pensei na fal\u00e1cia da intangibilidade dos recursos naturais, que significa que por lei os povos n\u00e3o podem cortam uma arvore nem para fazer lenha em seus territ\u00f3rios porque o mundo est\u00e1 esquentando, e \u00e9 verdade, mas a aberra\u00e7\u00e3o \u00e9 que s\u00e3o leis dirigidas somente aos camponeses e ind\u00edgenas e n\u00e3o \u00e0s grandes empresas, aqui, sim bem se estava destruindo nesse momento essa parte de terreno, e as vacas a\u00ed pastando a destruiria ainda mais, mas depois os companheiros a deixariam descansar para que se recuperasse e voltasse como estava nesse momento. Mas n\u00e3o s\u00f3 isso, se estava contribuindo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de recursos para a comunidade de maneira direta e n\u00e3o para umas poucas fam\u00edlias. Se trata pois de logicas muito diferentes de rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas e a natureza.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Horas depois, eu estava em uma rede dormindo depois de haver comido uma pequeno peru cozinhado em caldo \u00e0 que chamamos \u201clevantamortos\u201d, depois disso a cada momento que nos levant\u00e1vamos desej\u00e1vamos um \u201ccaldo levantamortos\u201d. Contudo, Roberto me acordo para indicar-me que t\u00ednhamos que ir estudar, e apenas tomei os livros, j\u00e1 estava Salvador e Don Manuel a\u00ed sentados ao meu lado contando-me a hist\u00f3ria dos primeiros anos da organiza\u00e7\u00e3o em tzeltal, enquanto Roberto me traduzia.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Os festejos e as celebra\u00e7\u00f5es para alimentar a resist\u00eancia<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">De cumbia em cumbia se foi acostumando o corpo e o cora\u00e7\u00e3o durante os dias de aulas. Entre o \u201ccama-cama-camal\u00e9on\u201d e \u201clos cuarenta grados mami\u201d, l@s companheiros conversavam, se contava alegrias e penas, se divertem, riem, e estreitam rela\u00e7\u00f5es. Nos casos dos grupos de m\u00fasica zapatistas se recriam a hist\u00f3ria da luta nas letras e o corro alimenta a resist\u00eancia, se sapateia ao mal governo! \u2013 como se chama o coletivo em que estou na cidade. Assim passam as horas sem \u00e1lcool e fazendo a esta em coletivo: a comiss\u00e3o do encarregado de cerimonias, os n\u00fameros que se apresentam, a prepara\u00e7\u00e3o do caf\u00e9, da comida, da aten\u00e7\u00e3o com os banheiros, e todas as atividades que se tem que fazer neste tipo de eventos.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Mas tamb\u00e9m h\u00e1 outros tipos de festejos e\/ou celebra\u00e7\u00f5es como as grandes \u201ccomilonas\u201d e as missas, onde se alimenta a resist\u00eancia de uma forma outra. O quarto dia na comunidade de Dolores, consistiu em levantar-se muito cedo para ir ao curral. Roberto brincou comigo dizendo que \u00edamos capinar, mas na realidade \u00edamos matar um par de vacas que o coletivo de mulheres e de homens concordaram doar para alimentar a resist\u00eancia de estudant@s e proess@res. Las protestas logo apareceram entre os vegetarian@s mas fazer o que, j\u00e1 havia o consenso entre a comunidade e por fim n\u00e3o s\u00e3o suas vacas.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Quando chegamos na do crime as vacas j\u00e1 estavam mortas e procedia cortar sua carne. Primeiro, por a vaca de pan\u00e7a para cima e retirar sua pele, depois os cortes precisos para separar sua carne e entranhas. Roberto segurou uma pata para facilitar a opera\u00e7\u00e3o e como \u00e9 costume nos cabia leva-la \u00e0 casa, e tamb\u00e9m um peda\u00e7o de corro para fazer uma correia. Pouco a pouco os companheiros foram tornando para fazer os cortes e lavar as entranhas, at\u00e9 que encima de umas ramas havia tantos montes de carne surtida como integrantes do coletivo de gado, havia tanto de homens quanto de mulheres, as quais come\u00e7aram a chegar mais tarde para a reparti\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que segundo se faz na comunidade n\u00e3o podem participar na morte e corte das vacas. Isto suscitou tamb\u00e9m muitos coment\u00e1rios e criticas d@s estudant@s feministas. O certo \u00e9 que assim \u00e9 e pelo momento n\u00e3o est\u00e1 em discuss\u00e3o, como tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 em discuss\u00e3o que os mais grandes que j\u00e1 n\u00e3o participam nos trabalhos coletivos sigam tendo os benef\u00edcios que lhes correspondem, neste caso sua por\u00e7\u00e3o de carne.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">N\u00e3o se trata de que o fato de matar uma vaca para um festejo alimente a resist\u00eancia por si s\u00f3, sen\u00e3o que no ato se fortalece a coletividade, se exerce a democracia na toma de decis\u00f5es, se palpam ou se saboreiam neste caso, os resultados do trabalho coletivo, se produz e reproduz o espirito da comunidade igual que em centenas de pr\u00e1ticas cotidianas e n\u00e3o t\u00e3o cotidianas com est\u00e1.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Depois da reparti\u00e7\u00e3o foi hora de cozinha-la, aquela vaca ficou reduzida a carne frita banhada em suco de lim\u00e3o e servida em tacos com feij\u00e3o refogado, e pela noite em caldo de carne com verduras. Nos apressamos a comer e banhar para a seguinte celebra\u00e7\u00e3o. @s companheiros haviam nos preparado uma missa para agradecer a estancia na comunidade e orar por nosso regresso bem a nossos lares, mas um \u201cchikla\u00b4kante\u201d aterrissou seu ferr\u00e3o nas minhas costas e ocasionou que durante toda a cerimonia sentisse escalafrios e come\u00e7asse a debilitar-me, quem sabe por isso eu estive pensando, reflexionando em muitos elementos da missa.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">A missa se realizou numa pequena capelinha de madeira e teto de lamina, com um espa\u00e7o dividindo as filas de bancos. Logo soubemos que do lado direito correspondia sentar as mulheres e do lado esquerdo aos homens, isso porque um dos estudantes homens o convidaram a mover-se ao seu lugar. Na parte traseira da capela os m\u00fasicos entonavam musica tzertal. Don Manuel, uno dos principais, organizava o necess\u00e1rio para a celebra\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">N\u00e3o se tratava de uma missa cat\u00f3lica como as que conhecemos, parecia que os sacerdotes e os principais coordenavam coletivamente a celebra\u00e7\u00e3o, enquanto que o centro n\u00e3o era o altar da virgem das dores sen\u00e3o o incens\u00e1rio queimando copal entorno ao qual estavam de p\u00e9. A missa foi dada em tzertal mas Roberto me traduzia quase tudo. Depois da leitura da passagem b\u00edblica sobre a imaculada concep\u00e7\u00e3o de Maria, o sacerdote abriu a palavra a@s assistent@s para que dissessem que significava para el@s, como se de uma assembleia se tratasse. S\u00f3 se pronunciaram homens. Um deles fez refer\u00eancia a rela\u00e7\u00e3o de Deus e a luta, e d como fortalecia os trabalhos da resist\u00eancia e convidava a seguir nela. Tamb\u00e9m falou que o mal governo recorre a propaganda contra a religi\u00e3o cat\u00f3lica para dividi-los e ent\u00e3o diminuir a luta. Em seguida se abriu passo a comunh\u00e3o a todo os que quisessem, e pouco depois se finalizou a celebra\u00e7\u00e3o. &nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Neste momento vari@s estudant@s j\u00e1 haviam abandonado o lugar, e alguns faziam caras de desaprova\u00e7\u00e3o, dando passo a coment\u00e1rios do tipo: \u201ctoda a luta est\u00e1 muito bem&#8230; mas a religi\u00e3o&#8230;\u201d eu fiquei pensando sobre o seu papel na resist\u00eancia, em como se dava volta ao seu papel colonizador reinterpretando-se desde el@s mesm@s me parecia igualmente colonizador pensar que os instrumentos de coloniza\u00e7\u00e3o entraram sem nenhuma oposi\u00e7\u00e3o dessa gente. Mas nessa altura eu ardia em febre e fomos para casa. N\u00e3o quis jantar e preferi ir descansar. Toda a fam\u00edlia se alarmou e foram chamar o promotor de sa\u00fade, quem me recitou um comprimido para febre. Don Manuel acendeu uma veladora. N\u00e3o sabia a ci\u00eancia certa que t\u00e3o grave era a situa\u00e7\u00e3o mas decidi deixar que aquele comprimido, a veladora, e o sono fizessem seu trabalho. Ao dia seguinte partimos para o caracol para nossa \u00faltima aula, a dan\u00e7ar debaixo de chuva e viajar durante v\u00e1rias horas na caminhonete rumo a San Cristobal das casas.<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Do que no vimos mas que sabemos que existe porque sustenta o que sim vimos: o autogoverno<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Nos dias de instancia na comunidade n\u00e3o pudemos experimentar diretamente tudo o que fazem @s companheir@s. n\u00e3o pudemos ver as enormes dificuldades do que significa resistir num contexto de guerra; de enfrentar pacificamente o ass\u00e9dio constante de militares e paramilitares; de n\u00e3o fazer caso \u00e0 desmoraliza\u00e7\u00e3o constante; de n\u00e3o receber nenhum programa e migalhas do governo. Tamb\u00e9m n\u00e3o pudemos ver a enorme for\u00e7a organizativa que est\u00e1 por traz do trabalho coletivo que sim vimos e que sustenta a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a produ\u00e7\u00e3o e o processo da autonomia em seu conjunto. Mas nossos livros e @s companheir@s nos falaram disso.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Talvez, o mais importante n\u00e3o foi ir aprender a quebrar o milho, a capinar o curral, a cortar carne, a dan\u00e7ar e escutar a ora\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o aprender como, a maneira em que se faz tudo isso constru\u00ed outra maneira de relacionar-se entre homens e mulheres e entre el@s e a natureza, outra maneira diferente \u00e0 da domina\u00e7\u00e3o e o dinheiro. E o que essa maneira de fazer as coisas tem seus pr\u00f3prios princ\u00edpios, tem seus pr\u00f3prios respons\u00e1veis que obedecem o que a comunidade manda e entre tod@s acordam, tem seu pr\u00f3prio sistema de governo. &nbsp;&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Em outro governo \u2013 diametralmente diferente ao de cima \u2013 a unidade b\u00e1sica de organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a comunidade, composta por v\u00e1rias fam\u00edlias como as que nos receberam a quase dois mil estudant@s. fam\u00edlias que tem trabalhos pr\u00f3prios ao mesmo tempo que colaboram nos trabalhos coletivos para financiar sua educa\u00e7\u00e3o, sua sa\u00fade, sua, justi\u00e7a, e aqueles que se comissionam com respons\u00e1veis para fazer reais as demandas pelas que se levantaram em armas em 1994. Entre toda a comunidade se elege quem far\u00e1 os trabalhos, quem os coordenar\u00e1 e quem os representar\u00e1 no seguinte n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o que o municipal, onde tamb\u00e9m h\u00e1 coletivos de trabalho para mant\u00ea-lo. Em este n\u00edvel as responsabilidades s\u00e3o maiores pois muitas s\u00e3o as comunidades que se tem que controlar, e maior responsabilidade ainda no n\u00edvel mais alto que \u00e9 o regional, a \u201cJunta de Buen Gobierno\u201d do caracol, que agrupa v\u00e1rios Munic\u00edpios Aut\u00f3nomos Rebeldes Zapatistas. &nbsp; &nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<span style=\"font-size:14px;\">Dita estrutura, com suas fun\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, \u00e9 sustentada pelo trabalho familiar e coletivo cotidiano e este por sua vez pela estrutura do \u201cOtro Gobierno\u201d, formando esse caracol que n\u00e3o se distingue in\u00edcio e final, o caracol da autonomia zapatista em resist\u00eancia. Faz trinta anos o Vot\u00e1n Zapata, guardi\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o do povo tomou o rosto de milhares de ind\u00edgenas que constru\u00edram em resist\u00eancia \u201cOutro Gobierno\u201d e uma s\u00e9rie de trabalhos coletivos para sustenta-lo. Hoje, trinta anos depois, Vot\u00e1n Zapata \u00e9 a palavra e a a\u00e7\u00e3o que atrav\u00e9s de noss@s professor@s vai caminhando rumo ao cora\u00e7\u00e3o do nosso territ\u00f3rio, centos de cidades e povos ao redor do mundo, esperando-fazendo a flor.&nbsp;<\/span><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Rene Olvera Salinas<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Traducido por: Luiz Miguel Mendon\u00e7a<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">Adherentes a la Sexta &nbsp;&nbsp;<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t<strong><span style=\"font-size:14px;\">M\u00e9xico DF, Septiembre de 2013.<\/span><\/strong><\/div>\n<div> \t&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00ab&#8230;Faz quase trinta anos, as rebeldias de outros calend\u00e1rios e geografias: o Vot\u00e1n Zapata, o guardi\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o do povo,<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":699,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-700","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-c13-resistencias-y-luchas-sociales"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=700"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/700\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/699"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}