{"id":1028,"date":"2014-07-18T08:53:50","date_gmt":"2014-07-18T08:53:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pueblosencamino.org\/wp\/?p=1028"},"modified":"2014-07-18T08:53:50","modified_gmt":"2014-07-18T08:53:50","slug":"comedora-de-placenta-ou-vitima-da-violencia-obstetrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pueblosencamino.org\/?p=1028","title":{"rendered":"Brasil: \u201cComedora de placenta\u201d ou v\u00edtima da viol\u00eancia obst\u00e9trica?"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">\u201cSou um animal ferido, que volta destro\u00e7ado e ensanguentado para o seu ninho, ap\u00f3s sobreviver a uma tentativa quase eficaz de abate. Sou um mam\u00edfero em apuros, com sua cria no colo, chorando pelo pouco leite que sai das tetas de sua genitora\u201d\u2026 \u201c\u00c9 o substrato da viol\u00eancia patriarcal, machista, corporativista e medicaloc\u00eantrica que nos encarcera nesse projeto de civilidade que se nos imp\u00f5e, rouba de n\u00f3s mulheres a autonomia, a for\u00e7a, o parto, o nascimento e a maternidade. Uma mulher que pari e sabe a for\u00e7a animal que tem em si \u00e9 uma grande amea\u00e7a a esse sistema, n\u00e3o \u00e9 mesmo?\u201d <\/span><\/em><strong><span style=\"font-size:14px;\">As\u00ed No!!<\/span><\/strong><\/div>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<strong><span style=\"font-size:16px;\">\u201cComedora de placenta\u201d ou v\u00edtima da viol\u00eancia obst\u00e9trica?<\/span><\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1026\" alt=\"\" src=\"http:\/\/pueblosencamino.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Nocesarea.jpg\" style=\"width: 650px; height: 515px;\" width=\"709\" height=\"562\" srcset=\"https:\/\/pueblosencamino.org\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Nocesarea.jpg 709w, https:\/\/pueblosencamino.org\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Nocesarea-300x238.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Ridicularizada e perseguida em sua pr\u00f3pria cidade, o relato absolutamente chocante de uma mulher cruelmente exposta por uma equipe de sa\u00fade e por uma m\u00eddia criminosa, sensacionalista barata<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Ligia Moreira Sena, cientista que virou m\u00e3e<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Foi assim que a experi\u00eancia traum\u00e1tica de parto de uma mulher (uma das mais traum\u00e1ticas que j\u00e1 li ou ouvi) foi relatada e divulgada pela m\u00eddia. Uma mulher reduzida a \u201csurtada comedora de placenta\u201d (<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/rn\/rio-grande-do-norte\/noticia\/2014\/07\/sem-tempero-diz-obstetra-sobre-mulher-que-comeu-placenta-em-natal.html\"><strong>Fonte 1<\/strong><\/a> \/ <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/rn\/rio-grande-do-norte\/noticia\/2014\/07\/sem-tempero-diz-obstetra-sobre-mulher-que-comeu-placenta-em-natal.html\"><strong>Fonte 2<\/strong><\/a>).<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">O relato e divulga\u00e7\u00e3o do caso, nesses termos, no entanto, somente aconteceram ap\u00f3s o m\u00e9dico que a atendeu, Iaperi Ara\u00fajo, ter se referido de maneira degradante, humilhante e ridicularizante \u00e0 parturiente em sua p\u00e1gina na rede social.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Voc\u00ea deve ter ouvido falar sobre esse caso. Aconteceu em Natal, no dia 02 de julho, mas a m\u00eddia somente come\u00e7ou seu freak show ap\u00f3s a postagem do obstetra. Ex-obstetra, corrijo-me. Porque ele decidiu parar de praticar a obstetr\u00edcia.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Pois bem.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Em uma das mat\u00e9rias que menciono acima, h\u00e1 uma entrevista com ele, que conta, sob seu vi\u00e9s, o que considera ter acontecido.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Eu, que estudo a viol\u00eancia obst\u00e9trica e as pr\u00e1ticas que a constituem, somente lendo sua entrevista (e os prints de sua publica\u00e7\u00e3o na rede social), pude identificar o que aconteceu, a motiva\u00e7\u00e3o, a luta dessa mulher contra a separa\u00e7\u00e3o m\u00e3e-beb\u00ea, o preconceito, a desinforma\u00e7\u00e3o, a m\u00e1 pr\u00e1tica, a luta contra a medicaliza\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia institucional e muitos outros pontos que nos d\u00e3o uma vis\u00e3o aproximada de algo que acontece, infelizmente, ainda muito pouco: a reivindica\u00e7\u00e3o expl\u00edcita dos direitos das mulheres no parto e contra a viol\u00eancia obst\u00e9trica. Mas acontece que encontrar mulheres suficientemente empoderadas para tal \u00e9 evento t\u00e3o raro que, quando acontece, elas s\u00e3o ridicularizadas e expostas pela m\u00eddia como \u201csurtadas\u201d, \u201ccomedoras de placenta\u201d ou \u201cirrespons\u00e1veis que colocam a vida dos filhos em risco e precisam de medidas legais que as acuem e as obriguem a uma ces\u00e1rea contra sua vontade\u201d, como aconteceu com Adelir Carmem Lemos de G\u00f3es, em abril deste ano.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Como a mim n\u00e3o interessa outra voz al\u00e9m da dessas mulheres \u2013 entre as quais tamb\u00e9m me incluo \u2013 abaixo voc\u00ea vai ler o relato da pr\u00f3pria parturiente. Hoje uma mulher vivendo um puerp\u00e9rio extremamente dif\u00edcil, v\u00edtima de bullying, ridicularizada e perseguida em sua pr\u00f3pria cidade, cruelmente exposta por uma equipe de sa\u00fade e por uma m\u00eddia sensacionalista barata.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">E por que?<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Porque lutou com todas as for\u00e7as que tinha, e ap\u00f3s ser humilhada, ridicularizada e vitimada pela viol\u00eancia obst\u00e9trica, que faz centenas de novas v\u00edtimas todos os dias, para que n\u00e3o a separassem de seu filho.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Esse \u00e9 o relato dela.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Absolutamente chocante.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">E vai continuar acontecendo. Todos os dias. Com centenas de mulheres.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">At\u00e9 que tenhamos medidas concretas para coibir e punir a m\u00e1 pr\u00e1tica que faz, todos os dias, novas v\u00edtimas.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">Olhe para seu pa\u00eds. Olhe para suas mulheres.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">H\u00e1 viol\u00eancia, mutila\u00e7\u00e3o e horror aqui mesmo.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">E encarada como normal, ou rotina.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<span style=\"font-size:14px;\">______________________________________________________________________________________<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1027\" alt=\"\" src=\"http:\/\/pueblosencamino.org\/wp\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cesareano2.jpg\" style=\"width: 650px; height: 423px;\" width=\"567\" height=\"369\" srcset=\"https:\/\/pueblosencamino.org\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cesareano2.jpg 567w, https:\/\/pueblosencamino.org\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cesareano2-300x195.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">\u201cSou um animal ferido, que volta destro\u00e7ado e ensanguentado para o seu ninho, ap\u00f3s sobreviver a uma tentativa quase eficaz de abate. Sou um mam\u00edfero em apuros, com sua cria no colo, chorando pelo pouco leite que sai das tetas de sua genitora. Eu. Que assustada me escondo de tudo e de todos, pois apesar de ter sobrevivido ao abate, sou agora a\u00e7oitada e perseguida por meus iguais, mam\u00edferos de mesma ordem, agora robotizados e produzidos por algum processo estranho e sint\u00e9tico, alheio ao processo natural de continua\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, n\u00e3o conhecem o amor, nem o nascimento, nem a maternidade.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">[&#8230;]<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">\u00c9 incr\u00edvel como na minha cabe\u00e7a o desenrolar dos fatos e das emo\u00e7\u00f5es est\u00e1 cada vez mais claro, n\u00edtido, e \u00e9 cada vez mais surreal a ideia de conseguir escrev\u00ea-lo.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">[&#8230;]<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Os flashes n\u00e3o me permitem dormir. O cansa\u00e7o \u00e9 infinito, as dores no corpo tamb\u00e9m s\u00e3o. Meus m\u00fasculos que aos pouco se recuperam dos \u00faltimos dois dias sem dormir, juntamente com o cansa\u00e7o provocado pelos momentos de tortura no hospital, meus m\u00fasculos doem, doem tanto que parece que jamais v\u00e3o sarar. Mas o que me d\u00f3i mesmo \u00e9 um canto do meu ser que n\u00e3o sei onde fica, n\u00e3o sei o que \u00e9. Sinto apenas uma sensa\u00e7\u00e3o de vazio na exist\u00eancia. Uma esp\u00e9cie de \u201crombo\u201d no meu existir, no meu ser, e que me anula por completo, me derruba como nem os meus torturadores conseguiram durante aquelas tr\u00eas horas e meia na sala de parto do Hospital Papi. Penso que o abate moral \u00e9 um limiar entre eu me suicidar e continuar existindo, me rastejando. Fui abatida? Ser\u00e1 que morri? Mataram-me e continuei viva, pelo meu filho que precisava ouvir as batidas do meu cora\u00e7\u00e3o e foi arrancado violentamente de mim pelas m\u00e3os de quem desdenhava de um animal ferido cujo sangue jorrava aos montes, preso a uma mesa da qual n\u00e3o podia sair, pois estavam-lhe arrancando o resto de parto, de vida, que havia nela, sua placenta, tracionada e arrancada brutalmente pelas m\u00e3os do obstetra que me atendeu na urg\u00eancia do hospital. Foi um verdadeiro espet\u00e1culo para quem assistiu. Pena que n\u00e3o foi fic\u00e7\u00e3o, e algu\u00e9m ali estava sendo humilhada, moralmente assassinada, fisicamente mutilada, destro\u00e7ada. Se me mataram, fui ent\u00e3o um cad\u00e1ver vilipendiado.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">[&#8230;]<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Finalmente, exatamente dez dias ap\u00f3s o nascimento do meu filhote, estou c\u00e1, sentada de frente ao computador, decidida a relatar o que me aconteceu. Foram dez dias de repouso e fortalecimento, mesmo com todas as cr\u00edticas, com todos os coment\u00e1rios atrozes e as reportagens na m\u00eddia me deplorando. Fui chamada de louca, psicopata, disseram que deveriam tirar meu filho de mim (e ent\u00e3o ter-me-iam arrancado tudo que restava, e de mim nada mais haveria al\u00e9m de um bolo de carne com um cora\u00e7\u00e3o pulsante, quando ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o haveria mais o limiar do abate moral, eu j\u00e1 estaria morta). Foram dez dias tamb\u00e9m de intensifica\u00e7\u00e3o de todo o sofrimento que me a\u00e7oita, pois agora eu tenho de lidar com in\u00fameros telefonemas, mensagens, pessoas perguntando umas \u00e0s outras se o absurdo da mulher que teria comido placenta, agredido m\u00e9dico e corrido nua por a\u00ed tinha sido eu. Infelizmente n\u00e3o comi minha placenta, ainda, pois ainda n\u00e3o tive coragem para encar\u00e1-la, pegar nela, senti-la, t\u00e3o cheia de mim, da minha cria, e das emo\u00e7\u00f5es que vivenciamos durante nove meses, e nos \u00faltimos momentos do meu beb\u00ea dentro de mim. Infelizmente tamb\u00e9m n\u00e3o corri nua, precisei perder alguns minutos me vestindo com roupas sujas e ensanguentadas, pois at\u00e9 panos limpos me foram negados. Pensando bem, eu estava com muito frio, a hemorragia incontida me enfraquecia cada vez mais, acho que foi instintivo parar para me aquecer com aquelas roupas, ainda que sujas e ensanguentadas, ali\u00e1s, sangue n\u00e3o faria diferen\u00e7a, pois depois que levaram meu filho de mim injustificadamente e manifestamente contra minha vontade para o ber\u00e7\u00e1rio para lav\u00e1-lo com sab\u00e3o, tirar o vernix protetivo e embrulha-lo com fraldas descart\u00e1veis e aquec\u00ea-lo artificialmente, desdenhando de meu clamor para t\u00ea-lo em meus bra\u00e7os, depois disso eu devo ter lavado com meu sangue o rol da frente do ber\u00e7\u00e1rio. Perdoe-me quem estiver lendo, os fatos v\u00e3o e vem, n\u00e3o sei se consigo seguir uma ordem cronol\u00f3gica muito precisa. E por fim, infelizmente n\u00e3o agredi o obstetra. E sequer posso mencionar publicamente o que se passa na minha mente, nesse sentido, por dois motivos: primeiro, eu seria processada, julgada e condenada muito facilmente por algum tipo penal como amea\u00e7a, por exemplo. O judici\u00e1rio n\u00e3o tem pena de foder com quem j\u00e1 est\u00e1 fodido. Segundo, n\u00e3o tenho energias para gastar com isso, preciso me concentrar no meu filhote, que precisa de mim. Se minhas tentativas de afirmar minha autonomia e meu direito de escolha que foram sistematicamente tolhidos e aniquilados durante todo o meu atendimento naquele dia 02 de julho de 2014, se foram agress\u00f5es, talvez eu o tenha agredido. E ainda assim digo isso em tom de ironia. Imagino que se as minhas tentativas de sobreviver ao massacre foram agress\u00f5es, o que foi o massacre que me ocorreu naquela sala de parto? Ser\u00e1 que um m\u00e9dico famoso de Natal, professor da universidade federal do RN, conhecedor de muitos ju\u00edzes, promotores, respaldado pelo corporativismo m\u00e9dico, judici\u00e1rio e elitista da regi\u00e3o, ser\u00e1 que ele seria sequer processado? Ou algum juiz amigo dele sentaria em cima do processo, ou mesmo enterraria o processo no quintal de casa? O que me resta \u00e9 escrever um relato. \u00c9 o substrato da viol\u00eancia patriarcal, machista, corporativista e medicaloc\u00eantrica que nos encarcera nesse projeto de civilidade que se nos imp\u00f5e, rouba de n\u00f3s mulheres a autonomia, a for\u00e7a, o parto, o nascimento e a maternidade. Uma mulher que pari e sabe a for\u00e7a animal que tem em si \u00e9 uma grande amea\u00e7a a esse sistema, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">[&#8230;]<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Cheguei no hospital por volta das 20h30\u2026 Eu estava a mais de 36 horas em trabalho de parto ativo, bolsa \u00edntegra. Quando subi para o atendimento, ouvi um velho grosseiro me gritando: \u201cPor que n\u00e3o fez pr\u00e9-natal??\u201d. Eu respondi: \u201cPrimeiro, eu fiz pr\u00e9-natal, mas n\u00e3o trouxe nada comigo, e segundo, o senhor n\u00e3o precisa falar assim comigo, viu?\u201d. Ele respondeu que estava falando em tom normal, que n\u00e3o tinha nada a ver, e saiu sorrindo. Eu havia feito todos os exames de sangue, ultrassons, inclusive no dia 01 de julho eu havia feito uma ultra cujo diagn\u00f3stico foi excelente, meu l\u00edquido estava bom, o beb\u00ea encaixado, saud\u00e1vel, maduro. Quando meu pai chegou na sala de atendimento o obstetra foi logo dizendo que n\u00e3o ia me atender, que se precisasse fazer alguma coisa ele n\u00e3o ia fazer, porque estava sozinho, e assim, manifestamente e na presen\u00e7a de todos que comigo estavam, me violentou pela primeira vez, negando-me atendimento. Pedi a meu pai que fossemos embora, pois a coisa n\u00e3o ia funcionar daquele jeito. Mas ele n\u00e3o concordou, estava muito apreensivo, e cansado. Resolvi ficar. N\u00e3o sabia que estava naquele momento assinando minha senten\u00e7a de morte. Eu tinha ouvido que eu iria pro quarto. Pensei: tudo bem, eu vou parir no quarto, deve estar pertinho e eu s\u00f3 preciso de um quarto. Mas n\u00e3o tinha leito no Papi, e n\u00e3o me encaminharam para outro hospital. Eu deveria ficar ali mesmo, esperando. Foi ent\u00e3o quando o doutor resolveu me examinar. Essa viol\u00eancia foi um pouco mais dolorosa. Ele fez um toque, rompeu minha membrana, gritei de dor. Sua m\u00e3o saiu de dentro de mim lavada com meu sangue e um pouco da minha integridade, que aos poucos ele terminaria de arrancar de mim nas tr\u00eas horas e meia seguintes. Pedi para ficar nua, e me foi dito que eu n\u00e3o poderia ficar nua, pois naquele hospital eu deveria seguir os protocolos. Consegui ficar apenas com a bata cobrindo-me os peitos. Aceitei a analgesia. N\u00e3o sabia eu que ali estava o \u00e1pice da domina\u00e7\u00e3o do meu ser, pois sem sentir as pernas eu n\u00e3o poderia me defender, sair andando, correndo, n\u00e3o poderia mais fugir do massacre, eu me tornaria um animal indefeso. Foram chamar o anestesista. Entre uma contra\u00e7\u00e3o e outra, que j\u00e1 estavam vindo de minuto em minuto e cada vez mais forte, gritei:<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">\u201cCad\u00ea o filha da puta do anestesista?\u201d. No meu tempo ele j\u00e1 estava demorando muito, eu j\u00e1 estava desesperada, e aquilo era meu grito de socorro. Ent\u00e3o, ironizando e debochando de mim, o doutor gritou: \u201cChamem a\u00ed o filha da puta do anestesista!\u201d. A cada segundo que se passava eu percebia mais o quanto aquilo estava fadado a n\u00e3o dar certo, o cara era um est\u00fapido, e n\u00e3o economizava seus deboches e suas grosserias. Quando ele chegou fui para a sala de parto, onde estava a mesa de parto, o aparato onde eu estaria sendo torturada pelas pr\u00f3ximas tr\u00eas horas e meia. Devia ter cerca de um metro de comprimento, por uns 70cm de largura. Imagino que se eu fosse mais larga eu teria me espremido entre os ferros. O anestesista me disse para sentar com os ombros curvados, pedi ent\u00e3o que ele aproveitasse entre uma contra\u00e7\u00e3o e outra, pois eu n\u00e3o conseguiria ficar parada naquela posi\u00e7\u00e3o durante uma contra\u00e7\u00e3o. Eu pedia para ele ir logo, mas ele estava muito ocupado falando ao celular.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Depois disso eu tive que deitar em posi\u00e7\u00e3o de exame ginecol\u00f3gico, a posi\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o. Eu estava completamente dominada. Perguntei se poderia ficar em outra posi\u00e7\u00e3o, de quatro, por exemplo, ou de lado, pois me aliviava a dor, e isso me foi de pronto rebatido com \u201cN\u00c3O\u201d por todos os lados. Eu deveria ficar quieta, segurando em dois ferrinhos que tem do lado das pernas na cadeira de parto. Eu n\u00e3o podia sequer por as m\u00e3os nas minhas pernas, ali\u00e1s, minhas tentativas foram todas frustradas, eu teria repetidamente minhas m\u00e3os encaminhadas de volta aos ferros da cadeira. Estavam comigo meu pai e Daniel, um amigo cl\u00ednico geral que havia ido conosco ao hospital. Me diziam para fazer for\u00e7a, empurravam minha barriga, eu fazia for\u00e7a at\u00e9 sentir que ia vomitar. A orienta\u00e7\u00e3o era essa: quando voc\u00ea achar que n\u00e3o vai aguentar e vai vomitar, pare. O anestesista pressionava meu est\u00f4mago com seu polegar, era fatal. Vomitei n\u00e3o sei nem quantas vezes, ap\u00f3s cada contra\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s ter meu est\u00f4mago pressionado repetidamente. Eu n\u00e3o tinha vomitado ainda, antes de ir pro hospital. Vomitei deitada, quase morri engasgada com meu pr\u00f3prio v\u00f4mito e ningu\u00e9m sequer me ajudava a me limpar. At\u00e9 meu pai e Daniel cederam \u00e0s ordens autorit\u00e1rias do obstetra e empurraram minha barriga. Segundo o anestesista, todos deveriam obedecer ao obstetra, pois ele era professor de todos. Eu sofria com a dor dos empurr\u00f5es e da m\u00e3o do obstetra dentro da minha vagina. Me senti estuprada. Diziam que era assim mesmo, e que se eu n\u00e3o me concentrasse ia matar meu beb\u00ea, que daquele jeito estava dif\u00edcil, que eu n\u00e3o ia conseguir. Ouvi isso repetidamente durante as tr\u00eas horas e meia em que estive l\u00e1. Lembro que eu mantinha em mente sempre que eu n\u00e3o poderia apagar, ent\u00e3o controlava a for\u00e7a at\u00e9 um pouco antes do meu limite, com medo de ficar inconsciente e do que poderia vir a me acontecer. Eu estava apavorada, e disposta a tudo para parir meu filho. Eu n\u00e3o iria pra faca, de modo algum eu me submeteria a uma ces\u00e1rea, ainda com toda aquela oferta. Vi gente entrando e deixando bolsa pessoal na sala de parto, com celular tocando, vi gente entrando com walk-talking ligado. Eu reclamava que tinha muita gente e muito barulho, e que as pessoas n\u00e3o estavam me ajudando. A pediatra, L\u00edvia, disse que aquele parto era uma loucura, que eu era louca, e que tinha que ter aquela equipe toda l\u00e1 dentro, disse que eu n\u00e3o era ningu\u00e9m para discutir a necessidade ou n\u00e3o de todas aquelas pessoas ali. Na verdade n\u00e3o entendo porque era t\u00e3o necess\u00e1rio, pois estavam todos (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o do obstetra que me violentava com suas m\u00e3os carniceiras e o anestesista que insistia em empurrar minha barriga) apenas observando, gritando comigo, conversando entre si e fazendo da minha vagina aberta e exposta um souvenir de aprecia\u00e7\u00e3o. Eu implorava, aos prantos, para o obstetra tirar as m\u00e3os de dentro de mim, pois ele estava me machucando, me invadindo, e ele repetidamente se negou a me atender, disse-me que se eu tivesse procurado um ginecologista eu n\u00e3o estaria ali atrapalhando a vida dele, disse-me que n\u00e3o estava ali para prestar servi\u00e7o algum para mim, e que minha vida pouco lhe importava, ele s\u00f3 se importava com o beb\u00ea. Quando o beb\u00ea nasceu eu percebi que na verdade nem com ele o cara estava preocupado. Ele queria, assim como toda aquela equipe est\u00fapida, que aquilo acabasse logo. Eu chorava, olhava pro meu pai e pedia ajuda, dizia que estava foda pra mim, e ele ent\u00e3o pedia ao m\u00e9dico que calasse a boca, pedia a tal da L\u00edvia que se calasse tamb\u00e9m. Eu disse que n\u00e3o queria que cortassem o cord\u00e3o umbilical do meu filho, e o obstetra perguntou com base em qu\u00ea eu dizia aquilo. Respondi que tudo que eu queria estava no meu plano de parto, que estava l\u00e1, que ele deveria ver, e que eu dizia aquilo com base na minha autonomia e no meu direito de escolha. Ele respondeu sagazmente que n\u00e3o aceitava plano de parto, e que nunca tinha ouvido falar naquelas coisas n\u00e3o, que l\u00e1 aquilo n\u00e3o existia. A pediatra L\u00edvia ent\u00e3o come\u00e7ou a gritar comigo dizendo que tinha que examinar o beb\u00ea, medir, pesar, fazer testes, levar pro ber\u00e7\u00e1rio, e eu disse que n\u00e3o deixava, ela me gritando e chamando de louca disse que eu n\u00e3o tinha autoridade pra decidir nada sobre o meu filho, eu respondi que o filho era meu e que ningu\u00e9m o tiraria de mim. Tudo isso entre uma contra\u00e7\u00e3o e outra.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">\u00c0s vezes a contra\u00e7\u00e3o passava enquanto eu tentava me defender de toda aquela escoria\u00e7\u00e3o moral. Pedi ent\u00e3o ao meu pai para que me ajudasse pois eu precisava me focar no trabalho de parto, meu filho estava prestes a nascer. Ele pediu a ela que colaborasse, que n\u00e3o tinha pra que discutir aquelas coisas comigo naquele momento. Ela respondeu que n\u00e3o se calaria, que tinha que falar e que eu tinha que ouvir mesmo. \u00c9 incr\u00edvel como eu me impressiono quando lembro do horror que vivi naquela sala. Lembro que quando o doutor fez o toque eu estava com 8 cm de dilata\u00e7\u00e3o, ainda n\u00e3o tinha come\u00e7ado o expulsivo. Pouqu\u00edssimo tempo depois minha tortura come\u00e7ara, e desde a primeira contra\u00e7\u00e3o o m\u00e9dico dizia: na pr\u00f3xima ele sai, fa\u00e7a for\u00e7a que ele vai sair, \u00f4 M\u00e1rcio, empurra a\u00ed a barriga dela. Dizia: olhe, eu sou muito bom em f\u00f3rceps, pena que meu equipamento n\u00e3o est\u00e1 aqui. Eu reclamava que ele estava me machucando, que tava doendo, e ele dizia: se voc\u00ea quisesse um parto sem dor faria uma ces\u00e1rea, quer? Voc\u00ea n\u00e3o quer uma ces\u00e1rea, ta vendo? Ta reclamando de que? Eu reclamava da luz, do barulho e ele respondia: eu j\u00e1 fiz parto humanizado, com baixa luminosidade, poucas pessoas na sala, mas aqui eu n\u00e3o tenho tempo pra isso n\u00e3o. Foi um horror ouvir aquilo, at\u00e9 eu queria que acabasse logo, mas eu n\u00e3o ia pra faca, e eu n\u00e3o ia ter meu corpo condicionado a uma ocitocina sint\u00e9tica.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Eu estava disposta a parir meu beb\u00ea, a qualquer custo, ainda que me estivesse custando a integridade moral e f\u00edsica. No finalzinho do processo a bolsa rompeu. O m\u00e9dico ouviu o cora\u00e7\u00e3o do beb\u00ea, estava 130 bpm. O l\u00edquido estava l\u00edmpido. Mas eu ouvia que o beb\u00ea estava em sofrimento. Imagino que presenciando toda aquela tortura, todo aquele tratamento desumano e degradante, meu beb\u00ea realmente estivesse sofrendo, mas em sofrimento fetal ele n\u00e3o estava. Eu sabia que estava tudo bem com ele. Eis que ent\u00e3o o l\u00edquido come\u00e7ou a se apresentar meconioso, mas de toda forma, para que se comprovasse o sofrimento fetal ele deveria ao menos ouvir novamente o cora\u00e7\u00e3o do beb\u00ea, mas quando indagado sobre tal, o obstetra respondeu que n\u00e3o iria mais ouvir, j\u00e1 tinha ouvido uma vez (antes da rutura da bolsa). Quando o l\u00edquido mudou de cor toda a press\u00e3o psicol\u00f3gica se intensificou. E ent\u00e3o, coagida a aceitar, sob pena de \u201cmatar meu beb\u00ea\u201d, cedi a uma episiotomia, que segundo o m\u00e9dico seria s\u00f3 um cortezinho pequenininho. Meu pai disse que ele cortou com a tesoura e terminou de rasgar com a m\u00e3o. H\u00e1 uns dois dias tive coragem de me ver, e descobri uma episiotomia que me rasgou at\u00e9 o anus, e que me d\u00f3i para sentar, para andar, d\u00f3i muito na hora de ir no banheiro, mas a dor maior que eu sinto \u00e9 na alma. Nem sei se um dia vou ter coragem de abrir as pernas de novo.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Meu beb\u00ea ent\u00e3o nasceu, veio para o meu colo, todo lindo, roxinho, cheio de mec\u00f4nio, respirando bem e chorando bravamente!!!! Viva! Eu havia conseguido!!! Eu e ele hav\u00edamos conseguido! Nosso pesadelo acabaria! Enquanto eu tentava dizer a todo mundo que ele tava bem, tava respirando, tava chorando, e que precisava ficar comigo. Disseram o obstetra e a pediatra que tinham de cortar o cord\u00e3o sen\u00e3o o sangue voltaria e o beb\u00ea perderia sangue. Meu pai ent\u00e3o recebeu das m\u00e3os do obstetra uma tesoura e cortou o cord\u00e3o. Enquanto isso a pediatra L\u00edvia estribuchava querendo arranc\u00e1-lo de mim, pois precisava examin\u00e1-lo, ver o que era aquela bossa na cabe\u00e7a dele (por certo ela n\u00e3o sabe nada de parto normal, de beb\u00eas que de fato nascem, em vez de serem arrancados de suas m\u00e3os pela barriga, por certo ela n\u00e3o sabe que bossa \u00e9 comum e n\u00e3o \u00e9 problema algum, por certo ela tamb\u00e9m n\u00e3o sabe que n\u00e3o precisa aspirar o beb\u00ea, mesmo com presen\u00e7a de mec\u00f4nio, desde que o beb\u00ea esteja respirando bem, e mais certo ainda que ela n\u00e3o sabe do meu direito de decidir sobre isso). Mas ningu\u00e9m me ouviu. Sob tal terror dessa m\u00e9dica inescrupulosa, meu pai me olhou e disse: \u201cEntregue o beb\u00ea sen\u00e3o eu vou embora\u201d. Daniel, com cara de apavorado, corroborou a fala do meu pai. Nessa hora tive medo de ficar sozinha e ser por fim trucidada e aniquilada, e aos prantos entreguei meu beb\u00ea para que fosse examinado na sala de parto. Pegaram ele que nem uma trouxa de panos e o aspiraram. De nada adiantou o pacto com meu pai, pois ele ainda assim se foi.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Saiu para buscar um pote para a placenta. Nessa hora olhei e vi o obstetra puxando minha placenta, o anestesista preparando uma inje\u00e7\u00e3o anti-hemorr\u00e1gica e uma pessoa de bata azul cinicamente levando meu beb\u00ea para o ber\u00e7\u00e1rio enquanto eu gritava para ele n\u00e3o ir. Desde o primeiro momento eu havia confiado a Daniel a tarefa de n\u00e3o deixar lev\u00e1-lo, mas ele tamb\u00e9m cedeu. Essa talvez seja a parte que mais me d\u00f3i. Quando minha placenta saiu eu gritei: \u201cA placenta \u00e9 minha!\u201d. O m\u00e9dico ia jog\u00e1-la no lixo. Ele ainda ironizou querendo me apresentar \u00e0 minha placenta, mas nessa hora eu s\u00f3 pensava em ir buscar meu filho. Pedi panos limpos, e me negaram. Pedi uma escada para descer da mesa. Negaram-me. O anestesista olhou pra mim e disse: \u201cMas voc\u00ea n\u00e3o pode andar, n\u00e3o sente suas pernas\u201d. Bati com for\u00e7a na minha panturrilha, dei v\u00e1rios tapas, com for\u00e7a, queria sentir o sangue circular, bati nas pernas dizendo que podia sim andar, e que se n\u00e3o me dessem uma escada eu ia pular dali, sangrando como estava, jorrando sangue.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Eu era um animal ferido, mutilado, ensanguentado, que teve sua cria tomada. Eu estava transtornada. Queria sair dali e me recolher, eu precisava me proteger, eu iria morrer sangrando ali, ningu\u00e9m me daria meu filho para que ele pudesse mamar e estancar a hemorragia. Tentaram me impedir de sair da sala de parto, pois eu estava nua. Foi ent\u00e3o que me deram meus trapos sujos de sangue, vesti ali no corredor mesmo, e fiquei gritando na frente do ber\u00e7\u00e1rio, de portas trancadas, gritando que queria meu filho comigo. Foi o \u00e1pice do espet\u00e1culo. Um ser abatido, lutando para ter sua cria de volta, e uma plateia imensa e inerte assistindo, me dizendo para tomar banho, me limpar, e ent\u00e3o eu poderia ver meu filho, pois eu estava desequilibrada e ele n\u00e3o era propriedade minha. Eu n\u00e3o vou nem mencionar o quanto eu queria exterminar cada uma daquelas pessoas que se interpunham entre mim e meu filho, mas eu estava muito fraca, perdendo muito sangue.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Foi ent\u00e3o que meu pai, que havia sa\u00eddo, voltou e me ouviu gritando, desesperada. Quando ele chegou \u00e0 porta do ber\u00e7\u00e1rio gritou dizendo que queria o beb\u00ea, e como resposta teve apenas o desd\u00e9m de todos. Foi preciso ele amea\u00e7ar arrombar a porta para que resolvessem sensatamente entregar meu filho (a ele). Finalmente pude ter meu filho nos bra\u00e7os.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">O que me foi arrancado jamais terei de volta.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Foi o dia mais pavoroso da minha vida.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">Espero um dia poder fechar os olhos para dormir em paz, sem que os ecos dessa tortura me atormentem.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">[&#8230;]<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<em><span style=\"font-size:14px;\">N\u00e3o consigo mais remoer os fatos, escrever esse relato me trouxe \u00e0 exaust\u00e3o\u201d.<\/span><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"> \t<a href=\"http:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2014\/07\/comedora-de-placenta-ou-vitima-da-violencia-obstetrica.html\"><strong><span style=\"font-size:14px;\">Fuente: Pragmatismo Pol\u00edtico&nbsp;<\/span><\/strong><\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSou um animal ferido, que volta destro\u00e7ado e ensanguentado para o seu ninho, ap\u00f3s sobreviver a uma tentativa quase eficaz<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1026,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-1028","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-c18-extermino-terror-y-guerra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1028","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1028"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1028\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1026"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1028"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1028"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pueblosencamino.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1028"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}